Victor R. Caivano/AP
Victor R. Caivano/AP

Insegurança de Mano preocupa CBF

Dirigentes avaliam que técnico, apesar de tentar se mostrar seguro, está indeciso; tentam ajudá-lo, mas futuro é incerto

ALMIR LEITE, PAULO GALDIERI, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2012 | 03h07

A pouco menos de dois anos para a Copa do Mundo que o País vai sediar, a seleção brasileira não convence. O time, recheado de jovens, ainda está em formação e o técnico Mano Menezes, depois de 36 partidas no comando - acrescentando-se os compromissos da equipe olímpica -, dá sinais de indecisão. E, apesar do jeito polido, tem demonstrado impaciência com as contestações a seu trabalho. A forma como recebe algumas críticas tem preocupado a cúpula da CBF.

De acordo com um dirigente próximo ao presidente José Maria Marin, Mano não corre risco imediato, apesar de Luiz Felipe Scolari estar livre e contar com grande apoio de torcedores e mesmo de pessoas influentes na entidade. "Nada muda no comando da seleção'', garante esse dirigente. Mas ele complementa: "Por enquanto''.

No momento, a preocupação de Marin, que tem procurado dar demonstrações públicas de apoio ao treinador, e de seus pares, é encontrar maneiras de dar sustentação e tranquilidade a Mano. Entendem - mais do que isso, reconhecem - que o técnico, de certa forma, está isolado.

Os integrantes de sua comissão técnica, principalmente os mais próximos como o auxiliar Sidney Lobo, não têm traquejo nem carisma para dividir as atenções com o treinador, assumir parte da pressão e dar a ele tranquilidade para trabalhar. O diretor de seleções, Andrés Sanchez, é quem tenta fazer este papel. Mas seu estilo trombador às vezes atrapalha, consideram pessoas que convivem com Marin.

O problema é que os cartolas também não sabem exatamente o que fazer. Já foi discutida a possibilidade da contratação de alguém com experiência e carisma para ser uma espécie de coordenador técnico - como Zagallo foi de Parreira na Copa dos EUA, em 1994. Mas não se chegou a consenso e, pelo menos por enquanto, a ideia foi arquivada.

Opção pela experiência. Algumas sugestões, porém, já foram dadas ao treinador, em conversas cujo tom tem sido de auxílio e não de cobrança ou interferência. Uma delas é voltar a olhar com mais atenção para jogadores experientes, que além do aspecto técnico podem ajudar a dar vivência e diminuir a pressão sobre a garotada.

Mano parece ter gostado. Tanto que, na véspera do jogo de quarta-feira contra a Argentina, acenou com a possibilidade de voltar a convocar o goleiro Julio Cesar. Também pensa em Ronaldinho Gaúcho, apesar de certo desapontamento nas vezes em que o chamou, e em Kaká, desde que esteja bem fisicamente. Luis Fabiano é considerado útil dentro e fora do campo, embora se tema seu jeito intempestivo, e até mesmo Fred pode vir a ter nova chance.

Após testar mais de 90 jogadores, Mano tem dito que, para ele, a seleção atingiu 70% de preparação. E definiu prazo para chegar aos 100%. "Temos de ter a seleção pronta um ano antes da Copa, ou seja, na Copa das Confederações'', disse recentemente. "É para isso que estamos nos preparando. Essa é a nossa intenção.''

Parece ter compreendido que na Copa das Confederações, no próximo ano, não será um evento-teste só para a Fifa, mas também para a seleção brasileira e para ele próprio - se chegar até lá.

O treinador admite que a seleção, sob seu comando, não convence e que é preciso rapidamente "apresentar um futebol que convença a nós mesmos''. Mas garante: "Solucionaremos todos os problemas''.

Sparrings. Os dirigentes da CBF concordam sobre a necessidade de não só os jogadores, como o próprio Mano, adquirirem "rodagem'' rapidamente, para se acostumarem com a pressão. Convicção que cresceu após as vaias recebidas em São Paulo e em Goiânia e fez aumentar a disposição de arranjar adversários fortes para a seleção a partir de 2013. Além de atuar mais vezes no território nacional.

Jogar contra times qualificados dentro do Brasil é uma forma de os jogadores, que são avaliados como carentes de experiência (mesmo os mais badalados, como Neymar), ganharem essa bagagem para diminuir a sensação de pressão que, inevitavelmente, enfrentarão durante a Copa de 2014. Para isso, até as vaias são consideradas positivas.

"Vaias são boas. É bom para eles criarem casca, para aprenderem como é. Acho até que a torcida pegou leve no amistoso no Morumbi, contra a África do Sul'', afirma o diretor de seleções da CBF, Andrés Sanchez.

No entanto, a intensidade desses "contatos'' com os torcedores brasileiros dependerá das gestões e interesses da Pitch International, empresa inglesa de marketing esportivo que tem com a CBF contrato para negociar bilheteria, publicidade e direitos de transmissão, e da ISE (International Sports Events), empresa árabe que organizará os amistosos da seleção até 2022.

A Pitch diz preferir acertar com adversários de nível e isso vai ajudar na confirmação de amistosos com a Inglaterra - um em Wembley, em 6 de fevereiro, já está definido, e outro deve ocorrer em junho, possivelmente no Rio - e com Portugal, nesse caso um jogo em cada país.

Na administração Ricardo Teixeira, o Brasil jogou contra várias seleções fortes, a pedido do próprio Mano Menezes. Mas as sucessivas derrotas para França, Argentina (com o time principal) e Alemanha e o empate com a Holanda, que colocaram o trabalho do treinador sob críticas, levaram a CBF mudar a estratégia, optando por enfrentar adversários inexpressivos.

Agora, o plano é retomado. Porém, e apesar da necessidade de a seleção criar "casca'', está definido que a dificilmente se exibirá para um público tão crítico quanto o de São Paulo. O Brasil só voltará a jogar na cidade na abertura da Copa. Se o time engrenar, o plano poderá ser revisto. Mas, ainda assim, só mais próximo do Mundial.

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