Rafael Arbex
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Intercâmbio esportivo coloca o Brasil mais perto da África

Ex-jogador de vôlei Paulo Pan facilita vinda de africanos para praticar handebol, vôlei e outras modalidades

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2018 | 08h00

O camaronês Michael Tsamene Chuala ficou encantado com os prédios e as rodovias de São Paulo no trajeto do aeroporto até o hotel em São Bernardo do Campo. Mas ele não está aqui como turista. Chuala faz parte do grupo de 20 atletas da seleção masculina de handebol que veio para um intercâmbio esportivo.

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Embora tenha sido apenas o 13º colocado no quadro de medalhas nos Jogos do Rio e ainda conviva com problemas estruturais, como falta de incentivo e problemas de gestão esportiva, o Brasil é uma referência para os africanos. Desde o ano passado, vieram de Camarões o time de basquete masculino e o handebol feminino. Nos anos anteriores, atletas de Ruanda e Quênia treinaram no Brasil.

A experiência com as meninas do handebol deu certo: elas conseguiram a vaga no Mundial. Após um período de treinos em Barueri, a seleção feminina de vôlei faturou, pela primeira vez, o Campeonato Africano de Nações. Os meninos do handebol se preparam para a Copa de Nações, no Gabão, em janeiro de 2018. Eles estão em São Bernardo do Campo, com apoio da prefeitura local, até 11 de janeiro. O intercâmbio é tão importante que recebeu até a visita do embaixador de Camarões no Brasil, Martin Mbeng.

Uma das razões da procura pelo Brasil é a infraestrutura. Lá, as quadras poliesportivas são construídas a céu aberto. São quase como o asfalto pintado. Se chove, não tem treino. As condições para os atletas também são difíceis. No ano passado, das 22 atletas que vieram para o intercâmbio no Brasil, 21 nunca haviam feito exame de sangue. Faltam investidores e o esporte é quase amador. “A maioria das pessoas trabalha e depois vai treinar”, diz Chuala, ala em um time de Angola.

A escolha pelo Brasil tem outras motivações. Os camaroneses reclamam de discriminação racial na Europa. “O que mais me encantou no Brasil foi a hospitalidade. Infelizmente, isso não acontece em todos os lugares”, diz o goleiro Fonsho Isaac Junior, de 28 anos.

A vinda da maioria dos africanos é viabilizada pelo ex-jogador de vôlei Paulo Pan. Com o financiamento do Ministério dos Esportes, federações e Comitês Olímpicos de cada país, Pan desenvolve projetos de desenvolvimento em cada modalidade.

Paralelamente, consegue apoios de parceiros brasileiros para melhorar as condições de treinamento lá. Nos últimos meses, arrecadou bolas de handebol e dezenas de pares de tênis para serem reutilizados pelos atletas de Camarões. “Fazemos uma corrente do bem por meio do esporte”, diz o ex-atleta que já realizou mais cerca de 30 viagens à África.

Em Ruanda, o esporte vem tendo um papel importante na reconstrução do país após o massacre de 800 mil pessoas da minoria tutsi por extremistas hutus no início dos anos 1990. Era preciso um esporte que apontasse um caminho para as crianças, respeitando as cicatrizes dos conflitos. Pan fez um projeto de iniciação de vôlei para jovens e adolescentes. A rede no meio da quadra dificultava eventuais agressões físicas entre etnias rivais, mas também inspira atletas em busca de uma saída para o futuro.

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