Irreverência

A Eurocopa chega ao fim neste domingo com saldo aquém das expectativas. Ninguém foi capaz de apresentar inovação tática ou futebol exuberante. Espanha e Alemanha mostraram ser as mais arrumadas, Portugal surpreendeu e a Itália, mais uma vez, fez valer a força da camisa. Tiro uma conclusão: o Brasil pode sonhar com o hexa desde que resgate um pouco de sua identidade. E fico com uma certeza: não há seleção no mundo melhor que a equipe do Barcelona.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2012 | 03h10

Em vez de abordar a competição europeia, no entanto, vou dedicar o espaço ao esporte nacional. Pensei, primeiro, em analisar a crise do São Paulo, um time com elenco razoável, mas cheio de jogadores vaidosos que se preocupam demais com o sucesso individual e pouco com o grupo. No fim, não pude deixar de lado o personagem da semana.

Romarinho, esse moleque (no bom sentido da palavra) irreverente, pisou no gramado do Estádio La Bombonera lotado, no jogo mais importante do Corinthians, como se estivesse disputando uma pelada no quintal de casa com amigos de infância. A cavadinha na bola sobre o goleiro argentino foi tão incrível quanto sua frieza ao entrar em campo. Um golaço que, creio, poucos atletas experientes seriam capazes de fazer - aliás, o vascaíno Diego Souza teve chance bem mais clara no Pacaembu contra o próprio Corinthians, mas falhou.

Três dias antes, o garoto havia humilhado o Palmeiras, com um gol de letra e outro em chute preciso. Romarinho, cujo nome não tem origem no do craque da Copa de 1994, não deve ter nenhuma noção do que já fez nestes poucos dias de Parque São Jorge.

O rapazinho de 21 anos é a cara do futebol brasileiro: audacioso, perspicaz, driblador, atrevido, gozador, irresponsável, travesso. Nem parece um profissional com contrato assinado e bom salário, mais lembra personagem infantil de desenho animado. Já é, sem dúvida, uma boa figura para o mundo da bola.

Podemos chamá-lo de atleta acima da média ou candidato a craque? A verdade é que não temos ideia do que Romarinho poderá fazer na carreira. É habilidoso, tem toque diferenciado, velocidade... Qualquer previsão agora, porém, será precoce demais. Sua vida no Corinthians se resume a uma grande atuação num clássico e alguns minutos felizes na final da Libertadores. É muita coisa, mas não o suficiente para conhecermos o verdadeiro potencial. Quantos jogadores iniciaram a trajetória como furacão e terminaram como brisa? Recordo-me de Eliel, um centroavante dos anos 90 que estreou no São Paulo com três gols numa partida e depois desapareceu.

O sucesso de Romarinho vai depender muito de boas orientações vindas de fora, de sua própria cabeça e da dedicação depois de ter encontrado a fama repentina. Aconteça o que acontecer, já cravou um lugar no coração da Fiel. Seu gol em Buenos Aires ainda não garantiu nada (o Boca, afinal, também é perigoso fora de casa), mas deixou o Corinthians mais perto do principal título de sua história.

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