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Isso é Libertadores!

Acho que todos já ouviram mil vezes jogadores e treinadores repetindo "isto é Libertadores!", sempre que um episódio de violência, agressão ou indisciplina acontece. A frase é ambígua e vem cheia de sentidos ocultos. Poder ser que seja uma frase de censura contra atitudes selvagens e inexplicáveis, mas frequentemente noto uma ponta, senão de admiração, pelo menos de satisfeita aceitação para situações que, no fundo, são vergonhosas.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h04

O fato é que gostamos da Libertadores com tudo o que ela é. Vibramos com as vitórias, enchemos estádios, aplaudimos chutões e divididas. Cada vez mais apreciamos a violência, as brigas e o tumulto: é hora de confessar isso. Alguns restos de uma tradição de jogar bola que já vai longe, nos impedem de agir exatamente como agem os outros. Nos impedem ainda de partir para a agressão aberta, para o ataque na frente das câmeras, mas, com um pouco de paciência, chegaremos lá.

Lembremo-nos dos corintianos presos na Bolívia. Por ora, no entanto, estamos nos limitando a posar de vítimas de adversários considerados tradicionalmente indisciplinados e sempre inferiores tecnicamente. A partida que o Grêmio acabou de jogar no Chile é um exemplo disso. Os chilenos se comportaram como selvagens, é verdade. Mas o que terá causado essa reação enlouquecida, depois de terminado o jogo? Terá acontecido alguma coisa que as câmeras não captaram? Muitos dirão que nada justifica a violência. É verdade. Mas sendo a Libertadores o que é, a violência também não pode surpreender ninguém.

Curiosamente Abel Braga, na entrevista em que falava da vitória de seu Fluminense, fez um comentário que requer atenção, ao afirmar que, enfrentando o mesmo furioso adversário, no mesmo Chile, na mesma Libertadores, foi recebido muito bem e tratado fidalgamente. Acho que isso faz pensar um pouco e revelar que o incidente tem ângulos obscuros.

De qualquer modo estou convencido de que a Libertadores oferece outros atrativos, dos quais o futebol é o menos importante. Nesse sentido São Paulo e Atlético-MG não foi um jogo de Libertadores. Houve só futebol, e isso é pouco. O que a Libertadores oferece são outras atrações a um público cada vez mais amante da violência, cada vez mais truculento, que vai a campo na expectativa de ver mais raça, força, patriotismo nas divididas, do que futebol. E se houver uma boa briga com pancadas e pontapés, melhor ainda.

De outro modo, não se justificaria o entusiasmo absurdo que essa competição desperta. Quando Vanderlei Luxemburgo caiu e ficou à mercê de vários jogadores adversários que lhe devem ter dado uns bons bicos, tenho certeza que muita gente vibrou por todo o Brasil. Não necessariamente porque era o Vanderlei. Podia ser qualquer um, talvez. Mas é que o torcedor espera justamente esse ingrediente indispensável para que se possa dizer: "Isso é Libertadores!"

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