Itália abre cruzada contra a Camorra

Governo acusa torcida do Napoli de vínculo com a máfia

O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2008 | 00h00

A Itália prepara uma cruzada contra a violência no futebol. E o alvo principal a ser combatido é a Camorra, grupo mafioso concentrado em Nápoles, sul do país. A organização criminosa, cujos tentáculos atuariam em diversos setores da economia local - entre eles agiotagem, extorsão, contrabando e tráfico de entorpecentes -, estaria ligada aos recentes atos de vandalismo registrados durante a primeira rodada do Campeonato Italiano, duas semanas atrás.Em audiência no Senado ontem, o ministro do Interior italiano, Roberto Maroni, revelou um dado capaz de alarmar as autoridades locais: dos 3.096 torcedores que foram à capital do país assistir à partida entre Roma e Napoli, em 31 de agosto, 810 têm antecedentes criminais e 27 mantêm algum tipo de vínculo com a organização criminosa. "A presença de um número tão alto de pessoas com antecedentes criminais, pertencentes ou relacionadas à Camorra, constitui um novo fator de risco e um multiplicador da violência no futebol", disse.Uma série de lamentáveis incidentes teve lugar antes do jogo entre duas das agremiações mais tradicionais do calcio. O descontrole culminou com o saque de um trem de passageiros - e a subseqüente destruição de vagões, num prejuízo estimado em 500 mil, quantia equivalente a mais de R$ 1, 24 milhão. Alguns dias depois do ocorrido, Antonio Manganelli, responsável pela polícia italiana, revelou estar convencido de que existe "forte influência do crime organizado" no recente episódio.Foram registradas também ocorrências durante a partida, um empate por 1 a 1, no Estádio Olímpico de Roma. Torcedores napolitanos lançaram diversos objetos contra os seguranças e a torcida adversária, provocando ferimentos leves.Terminado o jogo, o vandalismo voltou a alastrar-se nas imediações do estádio, atingindo também a estação central de ônibus romana. Em decorrência de tais atos, considerados intoleráveis pelas autoridades, resultaram em multa no valor de 10 mil, imposta ao Napoli pela Federação Italiana de Futebol.Os torcedores do clube napolitano foram também proibidos de viajar até o fim da temporada para acompanhar as partidas da equipe. De resto, as medidas estenderam-se ainda ao próprio Estádio San Paolo, a casa do Napoli. Um magistrado mandou fechar dois setores da arquibancada freqüentados pelos ultras - nome pelo qual a torcida organizada é chamada na Itália. O ministro do Interior, Roberto Maroni, anunciou o lançamento de um pacote de medidas antiviolência. Ao menos no discurso, a cruzada pela paz no futebol da Itália prevê intensa campanha de conscientização dos tiffosi por meio de anúncios publicitários exibidos em cadeia nacional de televisão, nas salas de cinema e nos telões dos estádios antes do início das partidas.Na próxima rodada, no fim de semana, a Federação Italiana de Futebol proibiu os torcedores de Catania, Fiorentina e Milan de viajarem para assistir aos jogos de seus times contra Internazionale de Milão, Napoli e Genoa, respectivamente.Tal tipo de medida proibitiva tende a tornar-se uma constante no Campeonato Italiano. "De agora em diante, se um jogo for considerado de alto risco, os torcedores visitantes serão automaticamente proibidos de viajar", anunciou Maroni, que não descarta a realização de partidas com portões fechados caso sejam taxadas de altíssimo risco. "Não haverá tolerância", avisa o ministro italiano.

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