Imagem Antero Greco
Colunista
Antero Greco
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Itália, Espanha e o básico

A primeira lição informal de quem se aventura a jogar bola ensina que futebol é conjunto. "Association", como está até na sigla da Fifa. Mas, em seguida, vem a segunda norma, também fundamental, sábia e clássica: o craque resolve. E como! A função do jogador habilidoso é decidir em favor do time dele, seja quando a partida estiver fácil, seja para desatar nós apertados.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2013 | 02h01

Pois bem. As regras básicas deram o ar da graça nos jogos de ontem pela Copa das Confederações e prevaleceram para europeus. A Itália bateu o México por 2 a 1 graças à inteligência e à arte de Pirlo e Balotelli. A Espanha ganhou do Uruguai por placar idêntico e da maneira que se tornou marca registrada dela nos últimos anos: com o poder do coletivo, com a avalanche de trocas de passes que empurra rivais incautos ladeira abaixo.

No meio da tarde, o Maracanã recebeu público e jogo bonitos, depois de muita pancadaria no lado de fora, em novo episódio de muito protesto e de truculência oficial. Dentro do bilionário, reformado e agora privatizado estádio, italianos e mexicanos fizeram espetáculo com bom ritmo, lances interessantes e a sensação de que, afinal das contas, ambos podem ser superados pelo Brasil nas rodadas seguintes. Uma interpretação otimista, que carrega algum exagero e pode levar a equívocos, se a seleção baixar a guarda.

A Squadra Azzurra marcou forte, ao estilo da Juventus que lhe serve como base. (Sete dos 11 que começaram como titulares de Cesare Prandelli pertencem ao elenco da campeã italiana.) Abafar o México era a intenção, e isso foi possível por 20 minutos. Depois, houve equilíbrio. A ordem foi alterada por Pirlo. O meio-campista, calejado e barbudo, desmontou o México nos passes, nos lançamentos e nas cobranças de falta (abriu o placar desse jeito).

A vacilada no pênalti cometido por Barzagli, ainda na etapa inicial, não chegou a abalar a Itália, porém animou o México. A festa terminou com Balotelli. O atacante infernizou o tempo e, com raça, arte e na base do atropelo, fechou a conta. Com direito a mostrar os músculos do peito nu e a levar mais um amarelo para a extensa coleção de advertências. Personagem raro, daqueles sem meios-termos: adorado ou odiado, mas nunca ignorado.

O México tem lampejos de categoria, com Geovani dos Santos e com Chicharito Hernandes. No entanto, oscila, comete erros na defesa. A Itália não abre mão da vocação para ser vigilante no meio e atrás, e pouco agressiva no ataque. Conta muito com Balotelli e com a pontaria de Pirlo na bola parada - e isso inclui cobranças de escanteio.

Impressionante pra valer é a Espanha. Uma equipe pra se tirar o chapéu, pelo controle de bola e dos nervos, pela paciência para envolver adversários, pela perversidade com que os deixa tontos, frágeis e os transforma joguete em seus pés. Não é novidade, vem pelo menos desde a Eurocopa de 2008, enveredou pelo Mundial de 2010, se aperfeiçoou na Euro de 2012 e, pelo visto, continuará nessa toada no torneio atual e na Copa do ano que vem.

O torcedor do Recife, por solidariedade ao Uruguai e para zoar, bem que tentou desconcentrar a ex-Fúria (rebatizada de Roja ou Vermelha), com vaias no começo que mudaram para aplausos no meio e no fim. Não há como fugir do encantamento da fineza de Xavi, Iniesta e acólitos, Deram outra aula de como ganhar com picardia e requinte.

A vantagem foi alcançada na primeira metade, com os gols de Pedro e Soldado, sem que sofresse ameaça. O Uruguai ficou zonzo, apelou para algumas pernadas, se livrou de levar surra e só diminuiu aos 42, em cobrança de falta de Suarez. Gol que não fez nem cócegas para a turma de Vicente Del Bosque. A Espanha se finge de folha e, na hora H, dá o bote fatal. Chover no molhado afirmar que é candidata fortíssima à final.

Dúvida dolorida. Como um governante que um dia foi torturado se sente ao ver imagens de jovens levando borrachada em manifestações contra a gastança em obras da Copa?

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.