Joel como Jó

A emissora que transmitia o jogo entre Flamengo e Cruzeiro mantinha uma câmera focada no técnico Joel Santana. Pode ser sadismo, mas era engraçado mesmo ver as caretas do técnico a cada vez que um jogador do seu time fazia uma jogada mais tosca ou perdia um gol feito. Num momento, Joel, desconsolado, levantou os olhos aos céus. Certamente pensava "Senhor, o que fiz para merecer isto?". Naquele momento, Joel era como seu quase xará, o Jó da Bíblia que, inutilmente, indaga a Deus o que havia feito de mal para receber tantos castigos, logo ele que tão bem O servira.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2012 | 03h08

Joel também tinha toda razão em voltar seus olhos para o céu. Sabia, melhor do que ninguém, que estaria com cabeça a prêmio caso saísse derrotado. E assim foi. Amanheceu segunda-feira como ex-técnico do Flamengo.

É uma tradição brasileira. O time vai mal? Troque o técnico. Faz parte do jogo, como a bola, o impedimento e o escanteio. Caíram até agora sete técnicos do futebol brasileiro, entre eles Dorival Jr. e Falcão, e ainda estamos na 11ª rodada de um campeonato que vai até dezembro. Quantos cairão até lá?

As justificativas são as de sempre. "O ciclo acabou" é o jargão atual, como se isso dissesse alguma coisa. Por que um ciclo acaba? E por que às vezes acaba tão cedo? Fadiga do material? Mas isso é algo que pode acontecer depois de algum tempo. Há técnico que mal consegue esquentar o banco de reservas. Dois empates, uma derrota diante de um adversário obviamente mais forte e pronto: está no olho da rua.

Por que os dirigentes fazem isso? Há quem tenha a resposta simples: como não pode demitir o elenco, escolhe a cabeça mais óbvia, e esta é a do treinador. Será que eles próprios, dirigentes, não têm culpa no cartório? Afinal, foram eles que escolheram esse mesmo técnico que, depois de alguns fracassos, veem-se na obrigação de mandar embora. Não seria o caso de dizer que a incompetência foi deles, cartolas, por escolher alguém inadequado para o cargo? Mas então eles teriam de se demitir a si mesmos e, que eu saiba, ninguém no futebol ateia fogo às próprias vestes. A regra é descarregar a responsabilidade em cima dos outros.

De qualquer forma, não existe medida mais inócua do que essa. Se o técnico não prestava, não deveria ter sido contratado. Se foi, é porque se trata de um profissional de confiança, que precisa de tempo para montar a sua equipe e conseguir resultados. Simples assim. Quem contrata um bom técnico e o mantém no cargo costuma ser recompensado. O caso mais exemplar é o do Corinthians. Se Andrés tivesse demitido o professor depois da ridícula desclassificação para o Tolima, Tite não teria feito o magnífico trabalho que levou o Timão ao título no Campeonato Brasileiro e à sua primeira Libertadores. Mas é sempre mais fácil eleger um bode expiatório e atirá-lo à sanha da torcida. Joel é apenas mais um Jó nessa sequência ininterrupta de demissões injustificadas.

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