'Jogador bom é jogador com fome'

Muricy Ramalho não tem meias palavras. Dono de personalidade forte, o tricampeão brasileiro se posiciona com clareza sobre os mais diversos assuntos, polêmicos ou não. Por exemplo, concentração no futebol, para ele, está com os dias contados (ele mesmo admite contribuir para mudar essa cultura). Muricy também entende que Ronaldinho Gaúcho deve ser convocado para a Copa do Mundo e que Zico, quem diria, foi mais jogador do que Maradona.

Entrevista com

Antero Greco, Wagner Vilaron, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2010 | 00h00

Claro, para não perder o costume, Muricy deixa evidente sua irritação com alguns assuntos. Um deles é o excesso de badalação a paparicação sobre os jogadores da base. "Eles contam com muitas facilidades", observa. "Mas jogador bom é jogador com fome."

A torcida do Palmeiras ainda se pergunta o que houve com o time no final do Brasileiro do ano passado...

Tivemos alguns problemas que são conhecidos. Houve aquela briga em Porto Alegre que nos custou as saídas do Maurício e do Obina. Por várias rodadas não tivemos o Cleiton Xavier e o Pierre. Aí você junta tudo isso e fica difícil.

Houve distanciamento entre os jogadores e você?

Isso é uma bobagem. A gente tem de ver jogador reclamando que não havia conversa e não pode falar nada para não prejudicar as pessoas. Sempre conversei bastante, sobretudo quando percebo que o atleta passa por algum problema. Aí o sujeito chega, não rende, sai para tudo quanto é lado e ainda reclama. É fogo!

Era complicado segurar o ímpeto do Marcos ao falar?

O Marcos é um baita cara. Ele é espontâneo, um torcedor em campo. E é difícil você fazer uma análise do time sem citar algum companheiro. Mas ele é uma pessoa tão querida que os outros entendem o desabafo. O Marcos jamais será entendido como um desagregador. Muito pelo contrário. Ele fala e logo depois se arrepende.

Qual o melhor time do mundo hoje?

Nossa, é difícil dizer. Mas pelo estilo de jogo e pelo grupo que tem, acho que o Barcelona

Entre os times que você ainda não dirigiu, quais gostaria de comandar dentro e fora do Brasil?

Bom, são vários. Mas, como já disse, tenho uma admiração especial pelo Barcelona. No Brasil, creio que o Flamengo, pela torcida que tem.

Telê foi o melhor técnico com quem você já trabalhou?

Não, o Telê sem dúvida foi um grande técnico, mas o melhor que conheci foi o Minelli (Rubens Minelli), outro tricampeão (brasileiro), mas não seguido. Aliás, não acredito que o que aconteceu comigo vá se repetir no futebol brasileiro. Acho difícil outro treinador vencer três Campeonatos Brasileiros seguidos. Essa nossa cultura de trocar treinadores, não dar tempo para o trabalho torna isso muito difícil.

E o melhor jogador?

Tirando o Pelé, acho que nunca vi ninguém melhor que o Zico.

Nem o Maradona?

Olha, nem ele!

Isso é polêmico...

O Maradona foi um craque, todo mundo sabe, mas acho que o Zico foi melhor do que o Maradona porque tinha a mesma técnica, mas tinha melhores fundamentos, como o cabeceio e o fato de chutar bem com as duas pernas.

Você gosta de futebol ou acompanha só por profissionalismo?

Eu gosto muito de futebol. Passo o tempo todo conversando sobre futebol, mesmo quando não estou trabalhando. Só que, hoje em dia, com tanto dinheiro envolvido, muita gente que está no meio não gosta de futebol. Está envolvida apenas pelo dinheiro. Isso vale para técnicos, dirigentes e jogadores.

Às vezes o dinheiro atrapalha?

Pode atrapalhar sim. O dinheiro é bom quando serve para dar mais conforto aos profissionais e estrutura aos clubes. Mas tem o lado ruim também, quando atraiu gente que só quer se aproveitar do futebol.

E como sobreviver nesse meio cada vez mais marcado por interesses nem sempre nobres?

Comigo não tem esse negocinho de acerto, de esquema. Eu só sobrevivo por causa de resultados. Eu não aceito jantar com esse, ir na casa daquele, eu não tenho jogo de cintura. Claro que isso faz muita gente não gostar de mim. Por isso preciso de resultados. Do contrário fica difícil, ficarei com o mercado mais restrito. Não é sempre que você encontra pessoas corretas como Juvenal Juvêncio (presidente do São Paulo) e Fernando Carvalho (ex-presidente do Internacional).

Esses problemas afetam também a formação de atletas?

Claro. A mentalidade hoje nas divisões não é mais formar jogadores. Os caras querem o troféu, querem vencer. Uma vez, quando estava no São Paulo, fui até Cotia (CT das divisões de base) e fiquei indignado. Os times jogavam no 3-5-2 e depois as pessoas reclamam que não formamos mais meias criativos. Fiquei tanto tempo no São Paulo precisando de um meia, de laterais. Mas não, formam apenas alas. Além disso, parece mesmo que as pessoas não gostam de futebol.

Como assim?

Pode até parecer incoerente, pois eu disse que o dinheiro é bom quando reverte para melhorar a estrutura dos clubes. Porém, você chega nesses lugares e os jogadores da base já têm cada um seu carro, tem tudo do bom e do melhor, empresário. É o seguinte: jogador bom é jogador com fome. Por isso fico irritado com alguns caras aí que vêm falar em motivação. Quando você está em um clube pequeno, sem estrutura e com salários atrasados, aí sim você precisa motivar os jogadores. Agora, pega a estrutura do São Paulo, do Inter, onde os caras têm hotel cinco estrelas, um monte de opção para tomar café da manhã, recebem em dia, muitas vezes até antecipado. Esses caras não têm de ser motivados, esses caras têm de ser cobrados.

É por isso que ainda existe a concentração?

Olha, eu acho que a concentração do jeito que é hoje vai acabar. É a coisa mais chata do mundo. Ninguém aguenta.

E por que não mudam?

Acho que é porque está na nossa cultura. É costume. Jogador hoje é mais responsável. A questão é alguém com força começar o processo de mudança. E acho que sou um desses que podem fazer isso.

Temos visto grandes jogadores retornarem para o Brasil. Você teve Adriano no São Paulo, depois o Corinthians trouxe Ronaldo e Roberto Carlos, o Santos está com Robinho. Como tratar esses atletas internamente? Os "diferentes" devem ter tratamento diferenciado?

Tem de tratar tudo igual. Essa história de que os outros jogadores aceitam bem os privilégios não existe.

Falando de seleção, você acha que há espaço para o Ronaldinho Gaúcho?

Acompanhei as últimas partidas do Ronaldinho e ele está muito bem. Fica difícil não imaginá-lo na seleção. Ainda por cima quando o Kaká, que é nosso principal jogador, não está bem.

E o Neymar, tem espaço na Copa?

Acho que seria precipitado. O Neymar é um ótimo jogador, fora de série. Mas ainda está em formação, não tem a experiência, o que é absolutamente natural pela idade dele. Uma situação como essa, de pressão gigantesca como é uma seleção brasileira em Copa do Mundo poderia queimá-lo. Tenho certeza que em 2014 ele vai arrebentar. É só cuidarem para que nada aconteça nesse meio tempo que o prejudique.

Pela característica, o Paulo Henrique Ganso não seria um bom substituto para o Kaká e, por isso, até estivesse mais próximo da seleção nesse momento do que o Neymar?

Olha, pensando por esse lado, concordo com você. De fato seria uma boa opção mesmo. Esse menino tem uma precisão de passe, uma tranquilidade que me lembram muito o Pita (ex-meia que se destacou na década de 80 no Santos e no São Paulo).

Ouve-se muito no meio do futebol que os treinadores andam supervalorizados. O mercado mudou ou é só uma fase?

Supervalorizado? Então me acompanha aqui em uma conta rápida. No tempo em que estive no São Paulo, dez jogadores foram convocados para a seleção brasileira. O Hernanes estava esquecido, olha quem é o Hernanes hoje. O Jean, quase afastado; olha o Jean hoje. Pense agora nas negociações, o Breno, um zagueiro, foi vendido (para o Bayern de Munique) por US 19 milhões (R$ 35 milhões). Quanto vale toda essa valorização? E os títulos, quanto valem? Se você colocar tudo isso na ponta do lápis, eu sou muito barato. É preciso analisar além do time, do treino, do esquema tático, É preciso analisar o retorno financeiro que o trabalho do treinador dá ao clube.

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