Jogo de cena

O caradurismo não sai de moda, é das reações mais perenes do homem. No futebol, o cinismo surgiu com o craque, o drible, o gol, o cartola e os erros do juiz. Uma combinação que se torna deliciosa, se vier seguida de intermináveis discussões, das que não resolvem nada e nas quais ninguém abre mão de convicções. É o fascínio do joguinho de bola.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2012 | 03h04

Tite e Neymar mantiveram fervilhantes o gosto pela polêmica estéril e o culto da cara de pau. O técnico desceu a lenha no astro, após o clássico, ao criticá-lo pelas quedas cinematográficas a cada esbarrão e pelos pontapés traiçoeiros que estaria a desferir nos marcadores.

Tite fez pausas longas entre as frases, abaixou a voz, fixou o olhar nos interlocutores, assumiu pose de orador pronto a emitir uma sentença que abalaria o mundo para decretar que o moço é dissimulado, exemplo nefasto, pois sua atitude manhosa induz árbitro e público ao erro. No dia seguinte, Neymar foi curto e grosso, ao responder que dorme tranquilo e sossegado. Um anjinho mimoso.

Ambos desempenharam o papel de finórios, se comportaram como fariseus, como definiria Toninho Cazzeguai, o maior filósofo de boteco nascido no Bom Retiro. E não há condenação moral, que não estou aqui pra desancar ninguém; já perdi a conta de quantas vezes vi esse bafafá no futebol. É até divertido.

Tite se aborreceu com a encenação de Neymar, e até está correto. O rapaz leva muita piaba, em três anos de carreira já apanhou mais do que muito veterano canela de vidro que tem por aí. Mas há momentos em que dá piruetas com maestria maior do que o Diego Hypolito, faturaria fácil medalha de ouro em qualquer olimpíada de presepadas. Com o amadurecimento aprenderá a dosar o faz de conta e a recorrer a esses expedientes com parcimônia - todo craque vez ou outra apela para artimanhas.

Só pra refrescar a memória, você lembra da "mano de Diós" de Maradona, contra a Inglaterra, na Copa de 1986? E de Pelé a enganchar-se em um zagueiro, dentro da área, cair no chão e ganhar pênalti? Waldemar Carabina, vigoroso xerife palmeirense dos anos 1960, foi vítima do Rei em episódio de tal quilate. Os dois camisas 10 não agiram corretamente, concordo e assino embaixo. Nem por isso foram encarados como nefastos ou deixaram de ser cultuados como semideuses dos gramados.

Volto ao Tite e respectiva bronca. Correto lutar contra a falta de fair-play. Mas o que pensa de Jorge Henrique, um dos mais matreiros boleiros destas bandas? O Macunaíma do Parque São Jorge se esparrama pelo chão, rola dez metros, esperneia como cabrito estouvado a cada tranco. Em suma, é um canastrão e não vi repreensão pública do professor. A torcida ri e o aplaude. Emerson Sheik mordiscou a mão de um argentino, na final da Libertadores, e saiu de campo como herói.

Ou seja, pedem-se lisura e bom-mocismo quando o calo aperta. E se faz vista grossa, se nos beneficiamos. Ética não pode ter meio-termo, nem adaptação: é ou não é. E não há ética distinta para o esportista, o médico, o verdureiro. É una e sacrossanta.

Aplaudirei de pé o técnico que numa final tirar o jogador mais casca- grossa, por não concordar com as traquinagens dele, ou que contestar um juiz por marcar um pênalti inexistente a favor de seu time ou anular um gol legítimo do rival. Esse treinador corajoso estaria a empunhar, de fato, a bandeira da moralidade. Enquanto isso não acontecer, prefiro encarar o lamento de Tite como parte do jogo de cena que dá sabor ao futebol. E ouso parafraseá-lo: "Fala muuuuito!"

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