Jogo encaixado

A copa nos ofereceu o melhor adversário: Chile, cinco vitórias em cinco jogos

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2010 | 00h00

Diante da linearidade tática do futebol, Marcelo Bielsa construiu uma equipe solidária, coletiva. "El Loco" fez da seleção chilena um laboratório de sua excentricidade. O mesmo sujeito capaz de restringir o uso de computadores e celulares na concentração é o ídolo transformador do time nacional, vergonhosamente despachado da Copa América de 2007.

O argentino Bielsa assumiu a seleção depois desse vexame com a proposta de conduzi-la novamente ao Mundial, 12 anos depois da última participação do país, na França, experiência encerrada por uma vitória brasileira no Parque dos Príncipes, 4 a 1. O sucesso nas Eliminatórias lhe deu fama e poder.

Enquanto Dunga faz da manutenção do padrão tático o pilar da sua linha de trabalho, "El Loco" assusta os certinhos, mexe no time de acordo com seu humor e as características do adversário. Utiliza linha defensiva de três ou quatro jogadores, trafegando do 4-5-1 para o 3-4-3. Sem cerimônia.

A sistematização em números importa menos do que a movimentação no campo, mas no caso do argentino ela ainda faz muito sentido, pois nos apresenta uma ideia, o que se espera do time e o posicionamento de cada um.

O Chile é uma equipe adestrada, adquiriu confiança porque aprendeu a respeitar o comando amalucado e seus bons resultados. Quando o jogador confia no treinador, o futebol colaborativo deixa de ser teoria. Contra a Espanha, apesar da derrota, enfrentaram os campeões europeus com dignidade, um exercício de surpreendente autoridade.

O mata-mata é perigoso, tem começo, meio e fim. A Inglaterra que o diga. Este Chile ataca e permite ser atacado. Não foi projetado para ser subjugado, joga para vencer. Não se trata de uma Suíça e seu ferrolho, mas tem falhas defensivas.

A Copa nos ofereceu o melhor adversário possível, de cinco jogos e cinco derrotas na era Dunga, duas já com Bielsa distribuindo as camisas. A seleção chilena não teme, joga, mas ainda não está a ponto de entrar para o rol das favoritas, mesmo diante de um Brasil taticamente torto.

Kaká e Robinho estão de volta, inteiros, recuperados, prontos para decidir ao lado de Luís Fabiano. O Chile evoluiu, merece todo o respeito, tem o estilo perfeito para uma seleção brasileira que vive reclamando de retrancas. A diferença e os números ainda estão ao nosso lado.

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