Jogo feio, gols bonitos

Você certamente ficou feliz com a vitória sobre o Chile. Não é para menos. A seleção saltou as oitavas de final e continua no caminho do sexto título mundial. Faltam três degraus para a consagração, sem direito a tropeços. Então, é hora de o crítico colocar areia no time de Dunga? Sim, uma pitada. Porque até fazer o primeiro gol, mostrava futebol feio, como havia acontecido diante de Coreia, Costa do Marfim e sobretudo no empate por 0 a 0 com Portugal. Depois de abrir a porteira do rival, o Brasil se impôs, como nas duas rodadas iniciais, ampliou a vantagem e fez o resultado que lhe interessava. Sem sustos. Mas sempre a abrir mão do espetáculo, embora tenha talento para jogar mais.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2010 | 00h00

O contraponto para esse estilo excessivamente pragmático fica para os gols. Assim como nos triunfos anteriores, todos foram bonitos, em especial os de Luís Fabiano e Robinho. Mesmo o de Juan, de cabeça, e em cobrança de escanteio, merece destaque. Pois não só escancarou o caminho para as quartas de final, como foi uma espécie de prêmio ao desempenho eficiente de um dos melhores e mais discretos zagueiros brasileiros que vi jogar. Ele me faz lembrar Luisinho, da seleção de 1982, pela elegância e pela segurança.

Significa que vai tudo bem? Não. A equipe demora a pegar. Larga em marcha-lenta, erra passes, deixa espaços. Parece displicente e desconjuntada. Falta-lhe ousadia, atravessa o samba. Porém, muda em parte ao obter o primeiro gol. Então, mostra solidez no sistema defensivo e explora contragolpes, a sua arma mortal. E faz a festa quando pega adversários sem qualidade para agredir e atrapalhados para defender-se. São as vítimas ideais.

Louve-se a eficiência desse grupo. Porém, há reparos. O meio-campo funciona como escudo para a defesa ? no que vai bem ?, mas raramente se solta. Se o fizesse com mais frequência, aumentaria o poder de fogo e aliviaria a missão de Kaká, que tem encontrado dificuldade para criar e ainda está aquém de forma física exuberante. Em dois momentos em que se deixaram dominar por espírito aventureiro, Gilberto Silva e Ramires surpreenderam. O primeiro, num belo chute na etapa inicial. O segundo, numa arrancada que resultou no gol de Robinho. Atos esporádicos.

O Brasil pode render mais ? e dá pistas disso ao encaixar trocas de passes, como no gol de Luís Fabiano. O que lhe falta? Constância. O grande teste virá na sexta contra a Holanda. Se passar, encorpa de vez e vai para a decisão.

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