Jogo sujo na palma da mão

Boleiros

Antero Greco, antero.greco@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

27 de março de 2009 | 00h00

O Toninho Cazzeguai era um cara bacana. Não jogava grande coisa - pra ser sincero maltratava a bola, grosso de doer. Mas dava o sangue nos clássicos antológicos que disputávamos no terreno baldio que havia na esquina da Solon com General Flores, no Bom Retiro dos anos 60. E que lealdade! Não apelava pra pontapés, não agarrava pela camisa, não inventava situações em seu favor. Pra ele, contava o prazer de brincar de futebol. Mesmo sem querer, praticava o jogo limpo bem antes de a Fifa se bater pelo fair play.Mas o Toninho virava bicho quando alguém queria bancar o esperto pra cima do time dele. Sabe aquela de brigar pelo lateral, pelo tiro de meta, pelo pênalti só por esperteza? ("É nossa! Não, é nossa! Saiu! Não saiu! Foi falta! Não foi!"). Com ele era na base do pão-pão, queijo-queijo. Sem roubalheira. Se o lance prejudicasse sua equipe, mas era o justo, nada a contestar. "É do jogo", dizia. Modelo de retidão, apanhou muito dos aventureiros com que topou pela vida, mas nunca se afastou de princípios tão simples e cordatos.O Toninho só não gostava de ser feito de bobo. E, por acaso, alguém gosta? Lembrei desse querido amigo ao ver o gol de mão marcado pelo Fabrício Carvalho no jogo com o Mirassol. O lance decretou o empate de 2 a 2 que salvou a Lusa de vexame anteontem no Canindé. O atacante que um dia quase foi condenado para o futebol por problemas de coração deu uma "largadinha" de vôlei, dentro da área, e enganou o trio de arbitragem. Ao ver a bola na rede, mandou uma espiadinha marota para os lados, para conferir se a encenação emplacou, e correu para o abraço dos companheiros. A torcida festejou e a vida seguiu. Certo? Certo uma vírgula! Do lado de cá, me coloquei no lugar dos jogadores do Mirassol, que se esgoelavam na tentativa de convencer o juiz Milton Ballerini de que eram vítimas de fraude. Sua senhoria, perto do lance, não recuou um milímetro da decisão. Lá longe, Fabrício Carvalho & Cia fingiam que o assunto não era com eles. Aguardavam a nova saída e planejavam a virada. Senti a revolta que bateu em quem tinha a vitória perto e a viu escapar por uma jogada desonesta, em que não contou a criatividade, muito menos a habilidade, mas apenas a falcatrua. Como fica o esforço deles? Alguém pode argumentar que isso também faz parte do futebol, que gol de mão aconteceu até em Copa do Mundo. E vem à tona o exemplo de Diego Maradona, em 86, contra a Inglaterra. O famoso gol marcado pela "Mano de Dios". Pois digo que não faz parte do jogo e muito menos há indício de inspiração divina nesse tipo de situação. Tem sopro divino no drible, no chapéu, no deslocamento imprevisto, no toque sutil na bola. Na ginga que deixa o adversário no chão, com o queixo caído, zonzo. Fico triste quando ouço um jogador falar que importa sempre a vitória, "mesmo por meio a zero e com gol de mão". Com o argumento adicional de que a história não leva em conta polêmicas de momento e só eterniza o resultado. Maneira tosca e rasteira de referendar a falsidade. Daí a achar normais a presença do cartola corrupto e a lengalenga do político que "rouba mas faz" é só um passo. É conformismo e desejo de entrar no esquema. É egoísmo e burrice. Não precisa prender o Fabrício, mas não dá pra passar batido (ele fez a mesma coisa quando jogava em Goiás). Chega de sermos tungados, na vida e no esporte.

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