Joia da Vila

Os clubes de futebol têm alma. Se o amigo leitor não acredita em alma, troque a palavra por essência. Se for uma pessoa mais informal, substitua essência por jeitão. Dá no mesmo. O fato é que os grandes clubes, sobretudo eles, têm mesmo um borogodó qualquer, uma característica marcante que os diferencia dos demais. Temos os clubes de massa, os clubes de elite - ainda que essa "elite" seja de milhões de pessoas -, os clubes tradicionais, os clubes inovadores, os ofensivos, os retranqueiros, os que privilegiam a raça, os que valorizam o talento, e por aí vai. O torcedor que sabe escolher um time em harmonia com suas características pessoais é sempre mais feliz. Imaginem um gremista que não goste de equipes raçudas, um são-paulino que despreze o talento ou um tricolor carioca que tenha delírios de torcer para o time do povão. Seriam sofredores eternos.Pois bem, há no Brasil um time que tem uma característica por demais marcante para ser ignorada. Um clube que, década após década, revela para o mundo jovens joias de puro talento. Que vincula cada ciclo vitorioso de sua história ao surgimento de verdadeiros artistas do futebol. Essa equipe - e todo mundo já sabe de que equipe estou falando, o que comprova minha tese - é o Santos Futebol Clube. O Santos de Pelé, o Rei do Futebol, que aos 17 anos já assombrava o mundo na Copa de 1958. O Santos dos Meninos da Vila, Pita, Juary, Nilton Batata, entre outros, que levantariam o título paulista de 1978. O Santos de Diego, Robinho e Elano, que desconcertou a crônica esportiva ao sair de uma classificação milagrosa aos mata-matas para o título brasileiro de 2002, deixando todos os favoritos pelo caminho: do vencedor da fase de classificação, São Paulo, até o forte adversário da final, o Corinthians.Agora o Santos volta a encantar os amantes do futebol criativo e moleque com outra de suas jovens revelações. O garoto Neymar tem os mesmos 17 anos que Pelé e Robinho tinham quando explodiram e começaram a conquistar o planeta. Se ele será capaz de dar títulos ao seu clube, ninguém sabe ainda. Se o seu futebol brilhará a ponto de poder ser comparado aos dos grandes craques da história santista, ainda é cedo para avaliar. Mas, como um vinho do qual conhecemos a procedência, o fato de ter surgido no Santos é que me anima a prever dias felizes para o rapaz.Amanhã, mesmo quem não é de São Paulo deveria ter a curiosidade de acompanhar o clássico Santos x Corinthians. Com sorte, poderemos presenciar um momento histórico: a gênese de um grande atacante do futebol nacional. Alguns dirão que é prematuro lançar o garoto num jogo tão importante. Outros argumentarão que Neymar poderia ser queimado na comparação direta com um gigante chamado Ronaldo, artilheiro máximo da história das Copas e eterna paixão da mídia. Discordo dos que pensam assim. Por quê? Ora, porque foi justamente em momentos absolutamente adversos e contraindicados para gente inexperiente que Pelé e Robinho deixaram suas marcas. Pelé foi lançado no terceiro jogo da Copa do Mundo de 1958, contra os russos, considerados prodígios atléticos e técnicos. Ele e Garrincha acabaram com o jogo e, dali para frente, jogando juntos, jamais perderam uma partida com a seleção brasileira. Robinho teria tudo para tremer diante do Corinthians de 2002, um time bem montado e de um pragmatismo impressionante. Mas ele pedalou, pedalou, pedalou... e continua pedalando até hoje, com o título de 2002 debaixo do braço. Por conta disso, meu conselho para Vágner Mancini, técnico do Santos, é um só: Neymar pra cima deles!

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