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Antero Greco
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Jovem. E aposentado

Não tenho relacionamento algum com Andrés Sanchez, ex-presidente e hoje superintendente do Corinthians, além de deputado federal pelo PT paulista eleito em outubro. Ou seja, nada contra nem a favor, como aliás deve ser a conduta do comentarista com todo dirigente. Mesmo que tivesse qualquer tipo de proximidade, não deixaria de fazer reparos à segunda participação dele como parlamentar. (A primeira foi na crônica de anteontem, a respeito do projeto de lei elaborado com o colega Goulart, do PSD-SP, de criar o Dia nacional do Corinthians. Proposta retirada, após a péssima repercussão popular.)

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2015 | 02h07

O deputado voltou à carga, agora oficialmente, com sugestão solo - quer dizer, sem parceria -, ao apresentar ontem Projeto de Lei Complementar (PLP 16/2015)que prevê a concessão de aposentadoria especial para atletas profissionais e semiprofissionais que comprovem 20 anos de contribuição à Previdência Social. O texto está disponível no site da Câmara ou no link (http://bit.ly/1wsyqPt), com o status de "aguardando encaminhamento".

Deixo o autor à parte, pois interessa o projeto e eventuais desdobramentos. O arrazoado parte da constatação de que a Constituição admite haver profissões que possam ter regime diferenciado para aposentadoria, desde que prejudiquem a "saúde ou a integridade física" dos que as exercem. Isso significa que o benefício chega para o cidadão com tempo menor de contribuição em relação às demais categorias e pode variar de 15 a 20 ou 25 anos.

A atividade esportiva entraria nesse universo particular e ocuparia faixa intermediária - a de 20 anos. Segue-se extensa explanação, que começa com a condição de atletas em geral para convergir para os jogadores de futebol, no fundo o público alvo do PLP 16/2015. Tanto que a maior parte do documento se ocupa de mostrar diversos aspectos que tornam jogar bola tarefa de risco para quem a pratica como ganha-pão.

Lá se encontra uma infinidade de observações conhecidas: os boleiros são expostos a movimentos que elevam a possibilidade de contusões; com o tempo se acumulam as dores musculares; nem sempre conseguem retomar treinamentos em ritmo normal. As baixas para tratamento se refletem no desempenho e nas finanças das equipes.

O texto lembra que, "diferente do que pensa o senso comum, a maioria dos jogadores de futebol são de famílias humildes, onde muitas vezes poderia nem ter condições para se alimentarem". Recorda ainda que poucos têm contratos milionários, que muitos recebem quantias baixas. Ok. Mas quem disse que o senso comum acha que jogadores vêm da classe média?! De onde se tirou tal argumento? Sempre se soube que jogadores vêm de camadas mais pobres da sociedade - embora tenham ocorrido mudanças para cima, felizmente. A maioria do trabalhador brasileiro é de origem humilde.

A explanação segue a linha do coitadismo do jogador e há pontos interessantes. Mas se desmancha no penúltimo parágrafo. Como a carreira de um atleta profissional é breve, se torna razoável garantir contribuição curta, inferior à de 35 anos para homens e de 30 para mulheres.

Como assim? Um atleta que encerre atividades, digamos, aos 35, 36 anos, equivale a cidadão inválido?! Não tem condições de trabalhar em mais nada na vida? Parece vontade de zicar o fulano. Ora, tem muitos anos pela frente, pode trabalhar - até na área - e continuar a contribuir e a ser produtivo. Ou faz sentido um jovem de 35 anos aposentar-se de maneira especial porque se desgastou praticando esporte?

No momento em que se pede sacrifício à sociedade soa bola fora propor a criação de mais privilégio para ser bancado por todos. Mais bacana seria incentivar a CBF, as federações, os clubes a criarem fundos de Previdência Privada para os atletas, como fazem tantas empresas. Serviria como exercício de cidadania geral e um avanço na relação com os profissionais. Fica a ideia, de graça, para algum parlamentar.

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