Carl Recine / Reuters
Carl Recine / Reuters

Jürgen Klopp, o técnico que dobra Guardiola

Obstinado, estudioso e adepto do jogo ofensivo, alemão leva vantagem sobre o espanhol, com quem volta a duelar nesta terça

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2018 | 07h00

"Nem sempre é preciso ter os melhores jogadores para vencer, e sim a melhor estratégia." É assim que Jürgen Klopp enxerga o futebol. É isso, a estratégia, que ele procura desenvolver a cada jogo, seja contra grandes adversários, seja contra meros coadjuvantes. E é assim que tem levado vantagem contra o papa dos técnicos de futebol, Pep Guardiola.

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A última vitória desse alemão de 50 anos sobre o espanhol cantado em verso e prosa como o melhor treinador do planeta ocorreu quarta-feira. Foi acachapante. O Liverpool atropelou o poderoso Manchester City no confronto de ida pela Liga dos Campeões. Precisou de apenas 30 minutos para fazer 3 a 0 e decidir o jogo. Nesta terça-feira, na volta em Manchester, às 15h45 (de Brasília), seu time poderá até perder por dois gols de diferença que se garantirá no mínimo entre os quatro melhores da Europa.

Enfrentar Klopp não chega a ser um pesadelo para Guardiola. Mas sempre é desconfortável. Desde os tempos em que ambos se encaravam no futebol alemão. Um pelo Borussia Dortmund, o outro pelo Bayern de Munique. O embate continuou no futebol inglês. E Klopp tem mais vitórias: 6 a 5, com dois empates - num deles, na semifinal da Copa da Alemanha 2014/2015, o Dortmund bateu o Bayern nos pênaltis.

Klopp não dá peso ao retrospecto. "Eu nunca derrotei Pep Guardiola, foram minhas equipes. Esse retrospecto não é importante. Pep não está preocupado com isso e eu não sinto orgulho disso, o que aprendo é que as coisas são possíveis. Se pudermos ganhar dos melhores, é o que importa. Acho que podemos, mas só se trabalharmos duro e de forma inteligente.''

O final da declaração também define bem o que Klopp pensa. Suas equipes primam pela intensidade no jogo e por boa estratégia, que só faz sucesso quando os atletas entendem o que propõe e como executar. E isso vem desde os tempos em que treinou o Mainz, entre 2001 e 2008 - aliás, só tem trabalhos longos, pois saiu do Mainz para ficar sete anos no Borussia Dortmund até se transferir em 2015 para o Liverpool.

Na Inglaterra, teve dificuldade no início de seu trabalho, em boa parte por falta de assimilação de seus métodos. Mas acabou por fazer compreenderem a proposta, que presa o jogo ofensivo, a proposição do jogo, a intensidade.

Estudioso de táticas e da evolução física - é graduado em Ciências Esportivas pela Universidade Goethe, de Frankfurt -, Klopp prepara suas equipes para finalizar bastante durante os jogos, roubar muitas bolas e correr muito em campo. Defende que, uma vez perdida a bola, o time tem cinco segundos para recuperá-la, e o mais perto possível do gol adversário. É o contra-ataque do contra-ataque.

Aos que reclamam que suas equipes ficam muito expostas - o Liverpool, por exemplo, ele arma para atacar com o maior número de jogadores possível, mas não exige que os homens que têm função mais ofensiva voltem muito para ajudar a defender -, ele diz que correr riscos é inerente da ousadia. E que o atrevimento dá mais resultados positivos do que a prudência - ou a covardia.

Klopp sempre foi definido como um ser ousado. Desde os tempos de jogador, em que fez longa e sem brilho carreira no Mainz 05. Tanto que começou jogando como atacante e terminou como defensor. "Tenho cérebro de Bundesliga, mas corpo de terceira divisão", disse certa vez sobre o "recuo".

Passo à frente

Ao encerrar a carreira, acabou convidado para treinar o Mainz porque o então treinador não era compreendido pelos jogadores. A explicação: um técnico anterior do time havia abolido o líbero, tradicional no futebol alemão, e adotou o esquema 4-4-2. Daí, quando o comandante da vez tentou voltar para o sistema com líbero não foi aceito e o clube pediu socorro a Klopp.

Ele aceitou com uma condição: voltar a adotar o 4-4-2 desenvolvido na equipe por Wolfgang Frank, um de seus mentores - o outro é Arrigo Sacchi, italiano que fez trabalho marcante no Milan. Funcionou e o Mainz voltou à Primeira Divisão.

Além de ousado e franco, o carismático Jürgen Klopp está sempre sorridente. Não costuma abandonar o bom humor nem nas derrotas doídas, e nunca deixa de lado os óculos, de variados modelos. Mas às vezes dá impressão de ter problemas para usar o pente.

Outra característica desse alemão nascido em Stuttgart é a inquietação. Nada o faz relaxar. "Mesmo após uma vitória, nos perguntamos imediatamente como iremos começar a próxima partida, como manter a forma e daí em diante'', diz.

Nos revezes, recorre a seus heróis dos tempos de adolescente: a dupla das histórias em quadrinhos Mortadelo & Salaminho, dois agentes secretos desastrados que viviam se arrebentando por causa de suas ações malsucedidas. Mas, no episódio seguinte, reapareciam sãos e salvos. Inteiros. "O tempo que os personagens precisavam para se recuperarem era brilhante'', observou Klopp em uma entrevista em 2005. "Não importa se eram esmagados por um rolo compressor ou caíam de penhasco de 200 metros, eles seguiam em frente!"

Moral da história: com Klopp sempre existe o jogo seguinte.  

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