Keila salta por si e por colegas

A saltadora pernambucana Keila da Silva Costa, de 19 anos, ganha cerca de R$ 2 mil por mês com patrocínios da companhia de telefonia celular Oi e dos projetos da Confederação Brasileira, mantidos pela Caixa Econômica Federal e pela Fiat. E direciona todo o salário para o Projeto Atletas Com Futuro, para meninos de rua de Abreu e Lima, interior de Pernambuco. Atualmente são 80 meninos e meninas competindo e 120, no total, alguns freqüentado a base do projeto, a escola Isaura de França, "apenas para comer e ficar longe de histórias como a do pai que bebe e bate na mãe", segundo define Roberto Ribeiro de Andrade, técnico de Keila. A escola tem uma pista de 415 metros, de terra, onde os atletas treinam.Keila é um dos destaque da delegação brasileira que disputa o Mundial Juvenil de Atletismo, em Kingston, na Jamaica - a competição segue até domingo -, pelos seus saltos e por sua história. Só de estar na final do salto triplo, entre as 12 melhores do mundo, é uma vitoriosa, na avaliação do técnico. "Keila não é atleta, é ser humano", diz Roberto.Keila é recordista brasileira juvenil do salto em distância (6,33 metros) e sul-americana do salto triplo (14,00 metros), uma prova em que o Brasil já produziu medalhistas como Nélson Prudêncio, Adhemar Ferreira da Silva e João do Pulo, e foi adotada para mulheres a partir de 1991.O projeto começou em um árvore. "Isso mesmo... Em uma árvore. Um garoto que competia jogou o tênis velho na árvore. Outros meninos fizeram o mesmo. A árvore, cheia de tênis, atraiu a atenção e o projeto ganhou apoio. Hoje, os tênis são dados pela Olympikus." Outros recursos vêm do salário de Keila, da escola Isaura de França, que oferece a comida e o local de treinamento, da Esef, a universidade de Educação Física de Pernambuco, que fez um estudo de biomecânica sobre o salto de Keila. "Mas tudo improvisado, vindo daqui e dali", define Roberto.O técnico acha que o salário "de um jogador de futebol que foi pentacampeão, poderia formar alguns campeões olímpicos". Ressalta, por exemplo, que Keila precisaria de mais recursos para estar na elite mundial. Não tem, entre outros aspectos que contam na formação, orientações nutricionais. "Ninguém diz a ela o que repor no organismo após uma prova, ou qualquer outra orientação necessária nesse e em outros campos, que acabam parecendo sofisticação, mas que são necessários." Nos Estados do Nordeste, segundo Roberto, há crianças com biótipo, negros principalmente, acostumadas a correr e a subir morros - a Keila mesmo mora em um morro - e com vontade de estar em um projeto esportivo. "Faltam programas para canalizar esse potencial. Não temos nada parecido com a estrutura do Rio e de São Paulo, que mesmo assim nem é a ideal."

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