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'La Décima'

O maior clube de futebol do planeta esperou por 12 longos anos para voltar a uma final da Uefa Champions League. Projetado para funcionar como máquina de títulos, o Real Madrid faturou 'La Décima' na prorrogação, na primeira decisão da história entre equipes da mesma cidade.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2014 | 02h04

Não foi a final europeia mais bonita nem a mais emocionante, mas ela será lembrada para sempre pela rivalidade, pelas circunstâncias que a cercaram e pelas coincidências que marcaram o caminho do Atlético.

Diego Simeone fez da Champions a sua Libertadores pessoal. Na sexta-feira, o volante Tiago disse que o treinador argentino, ex-jogador do clube, um mestre das bolas paradas envolto por superstições, era um deus para os jogadores. E que se pedisse para o time pular de uma ponte, todos pulariam.

Foi com essa confiança que 'el Cholo' assumiu o risco de escalar o atacante Diego Costa, um sujeito humilde, nascido em Lagarto, Sergipe, que deve jogar a Copa pela Espanha. A experiência durou apenas nove minutos, o tempo necessário para a contusão na coxa se manifestar novamente.

Preparado para o baque, o time manteve a calma e saiu na frente com o zagueiro Godin, com mais um gol de cabeça, aos 35 minutos do primeiro tempo. Exatamente no momento em que a partida exibia toda a dificuldade do Real Madrid em se confrontar com um adversário humilde, organizado e entusiasmado, como bem definiu Vicente Del Bosque, treinador da seleção espanhola.

Com Benzema e Cristiano Ronaldo longe das melhores condições físicas, e Modric, o dono do passe do meio- campo, recuado para fortalecer o jogo de Khedira, herdeiro da vaga do suspenso Xabi Alonso, os merengues tinham uma enorme arapuca para desarmar no segundo tempo.

A delícia do futebol é que 30 minutos podem significar uma eternidade para quem sustenta a vantagem ou uma fração de segundos quando é necessário encontrar a saída do atoleiro. Era mais ou menos o tempo que Carlo Ancelotti possuía para tirar a taça do rival.

Comparado a um camaleão por Arrigo Sacchi, pela capacidade de se adaptar aos jogadores de suas equipes e de extrair o máximo deles, Carletto foi para o ataque. Trocou Coentrão e Khedira por Marcelo e Isco. Àquela altura, talvez menos por convicção e mais por necessidade. Dificilmente o time conseguiria se manter equilibrado com um meio-campo tão ofensivo.

Mas conseguiu, pois foi nesse momento que o Atlético ofereceu ao Real a sua contribuição para a virada. Com a vantagem no placar, Simeone se reorganizou taticamente, trocou o sistema 4-4-2 pelo 4-5-1. Transferiu Koke do lado esquerdo para o meio e enviou o atacante Adrián para a função defensiva do colega.

Com o Atlético cada vez mais recuado e sem saída para o ataque, a mudança de Ancelotti não produziu danos no Real Madrid. Ao contrário, fortaleceu tanto a equipe que quando o gigante Sérgio Ramos empatou, aos 48 minutos do segundo tempo, os 'colchoneros' pularam da ponte, destruindo a fortaleza psicológica construída por Simeone.

Com o emocional abalado e o físico esfacelado, a prorrogação foi um passeio dos merengues, mesmo sem a presença efetiva de Cristiano Ronaldo. Com Carletto no banco e com o time pacificado depois da passagem de José Mourinho, Sérgio Ramos e Di Maria conduziram o Real Madrid para a 'La Décima'.

A vitória do Real Madrid é incontestável. Mesmo quem viu excesso nos cinco minutos de acréscimo ao final do segundo tempo, determinado pelo árbitro holandês Björn Kuipers, percebeu mais tarde que é impossível reclamar disso.

Simeone não precisa se desculpar por ter escalado Diego Costa. A matéria-prima do futebol é o risco. O Atlético correu todos os que poderia enfrentar. Mas perdeu para o clube mais rico do planeta, na noite em que seu treinador e jogadores pularam da ponte.

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