Lacunas malditas

Estamos de volta ao período da tensão pré-janela, em que jogadores brasileiros são vendidos para a Europa até 31 de agosto, modificando com isso os prognósticos do principal campeonato nacional. É claro que tudo que acontece até a primeira metade das rodadas indica tendências e tem explicações, mas é claro também que muitos times perdem a identidade depois dessa época de exportações. E que o mais provável não é que o campeonato suba de nível técnico, pelo mesmo motivo, e deve apenas melhorar porque os momentos decisivos vão chegando, as equipes se definindo e o preparo físico melhorando. Não demora muito, leitor, e você vai ver os comentaristas quase em uníssono dizendo que se trata do torneio mais equilibrado do mundo, etc e tal.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2011 | 00h00

O fato é que alguns fatos já vão se estabelecendo, ou melhor, alguns mitos vão sendo derrubados. Por exemplo, o de que o Corinthians era líder com folga do Brasileirão e os outros teriam dificuldades para alcançá-lo. Bastaram alguns tropeços e o time já queimou toda essa "gordura", como se diz. Por quê? Foram os outros que melhoraram ou a realidade que apareceu? Um pouco das duas coisas. O Flamengo, por exemplo, claramente melhorou com um meio-campo mais firme, Ronaldinho adiantado e mais em forma, Thiago Neves dividindo com ele a criação e a finalização. E nenhum time tem dois jogadores com esse nível técnico, apesar de irregulares. Era natural que subisse na tabela.

O Corinthians era líder por alguns motivos, como escrevi no blog, e a partir do momento que alguns desses motivos faltaram o desempenho caiu. Liedson, por exemplo, fez mais falta como referência do que pelos gols, já que sua média caiu bastante. Danilo é um dos poucos jogadores com visão de jogo e categoria para dar assistência, mas não consegue fazer isso sozinho, à espera de Alex se acertar (Emerson é outro que ainda não está jogando o que sabe). Os volantes são bons e os laterais sabem apoiar, mas Chicão, mesmo errando como na última partida, dá outra cara à defesa. O que o time não tem são jogadores criativos e decisivos, como o Flamengo.

O São Paulo é uma incógnita, mas o elenco não é ruim, embora sinta falta de um goleador como Luís Fabiano, que até agora não estreou. A qualidade da defesa é bem inferior à de anos anteriores, e também jogadores como Dagoberto, Rivaldo e mesmo o promissor Lucas têm muitos altos e baixos. Com um pouco mais de padrão tático, o time pode melhorar e fazer frente a Flamengo e Corinthians - aos quais talvez se possa acrescentar o Vasco de Juninho, Felipe e Diego Souza. Já outros que vinham bem, como Palmeiras e Cruzeiro, e outros com bons jogadores, como Santos e Internacional, parecem travados por questões de contrato ou prioridades.

Agora convenhamos, olhando para esses clubes com mais chances de conquistar o Brasileirão 2011, que a coisa não vai bem. Com exceção de alguns poucos jogos, como aquele Flamengo 5 x 4 Santos, em que Neymar brilhou mais que todos também pelo fato de começar a ter um homem de área (Borges) com quem dialogar, o que se vê é tedioso. Felizmente a fase dos "meios congestionados", cheios de volantes, parece ter passado, talvez por influência da Copa de 2010 e do inimitável Barcelona, mas esse alento tático não se traduziu em qualidade técnica. Como já escrevi, há carência geral de bons camisas 9 e 10; ou, na frase de Tostão, "faltam ao Brasil um excepcional centroavante e um grande armador".

Daí quererem Ronaldinho de volta à seleção brasileira, o que me parece ingênuo. Luxemburgo notou outro dia que até Ronaldo havia um "cara" em quem a equipe confiava principalmente para os momentos mais complicados, e que nem Ronaldinho nem Kaká nem Robinho conseguiram preencher essa lacuna. Mano Menezes, portanto, precisa lidar com essa herança "maldita": não houve uma transição gradual e razoavelmente contínua da geração vitoriosa de 2002 - que tinha ainda laterais como Cafu e Roberto Carlos, tão injustamente atacados - para a atual. De repente, meninos como Neymar, Ganso, Lucas e Pato são postos diante do desafio de preencher essas exigências. Por mais erros que venha cometendo, é difícil dizer a Mano que deve convocar este ou aquele e tudo se resolverá. Falta material humano - e um Neymar não faz o sertão virar mar.

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