Lais usa a mente de atleta para vencer desafios diários

Lais usa a mente de atleta para vencer desafios diários

Recuperação de ex-ginasta que ficou tetraplégica após acidente de esqui surpreende os médicos

Gonçalo Junior, Enviado Especial - Miami, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2014 | 17h00

A cada duas horas de sono, Lais Souza tem de mudar de posição na cama para evitar as feridas causadas pela imobilidade. A mãe, Odete, dispensa o relógio e acorda sozinha às duas, às quatro e às seis da manhã. Já são oito meses desde que ela perdeu os movimentos dos braços e das pernas em um acidente de esqui quando treinava para os Jogos Olímpicos de Inverno. Às oito da manhã, um novo dia.

A primeira refeição tem leite, sucrilhos, pão, nada de restrições e muito menos dieta. Antonio Marttos, médico que a acompanhou desde o acidente por indicação do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), afirma que a alimentação pela boca é uma de suas grandes conquistas, algo impensável após o acidente, quando os médicos pensavam na introdução de um tubo para levar os alimentos direto para o estômago.

Depois do café, ela vai para a fisioterapia no Miami Phisical Therapy, no centro da cidade. O trajeto é feito em 15 minutos porque Lais ganhou um carro do piloto Hélio Castroneves, um dos grandes apoiadores da recuperação da atleta. Antes, mãe e filha faziam o trajeto de metrô. Mesmo com as facilidades do transporte público de Miami, era difícil nos dias de chuva. Tinham de esperar a garoa passar para terminar o percurso. “Somos da mesma cidade, Ribeirão Preto, e sempre me envolvi na recuperação dela”, conta o piloto da Fórmula Indy, tricampeão das 500 Milhas de Indianápolis.

A fisioterapia é o motor da vida da atleta de 25 anos. Literalmente. Eletrodos dão pequenos choques e provocam a movimentação dos músculos. A ideia é manter o tônus, estimular os músculos que se movimentam e despertar os “adormecidos”. É uma luta contra a imobilidade. O tratamento é custeado pelo COB. Além disso, a Câmara dos Deputados aprovou uma pensão vitalícia – nos mesmos moldes do benefício oferecido aos campeões mundiais de futebol – no valor de R$ 4,3 mil. Falta aprovação do Senado.

E por que ela perdeu os movimentos? Por causa de uma lesão na terceira vértebra (C3) da coluna cervical ao se chocar com uma árvore. O choque na coluna, acima do pescoço e quase na cabeça, causou problemas sérios, entre eles o fim da movimentação do pescoço para baixo e a perda de sensibilidade. Isso porque é a medula que transmite os comandos do cérebro até o corpo e recebe as sensações.

Mas é meia verdade dizer que ela é ex-atleta. Embora não consiga mais competir no salto sobre o cavalo, por exemplo, sua prova favorita, e em outros aparelhos que lhe valeram o nono lugar na Olimpíada de Pequim, ela ainda pensa como ginasta ou esquiadora. “Lais usa a mentalidade de atleta para se recuperar. Isso faz uma grande diferença. É a recuperação mais acelerada que eu já vi”, diz Marttos, que também é cirurgião e diretor do centro de telemedicina e trauma do Hospital Jackson Memorial, onde ela ficou internada.

Depois do almoço – a senha para agradá-la é um caprichado estrogonofe de frango –, nova fisioterapia. Agora em casa. Os exercícios também previnem infecções respiratória e urinária e trombose, principalmente nas veias das pernas, além de ajudar naquelas lesões na pele que fica em contato com a cama. A fisioterapia inclui exercícios para respiração. Essa é outra conquista que impressiona os médicos, pois havia a expectativa de que ela respirasse por aparelhos o resto da vida.

Dia sim, dia não, ela estuda inglês. O professor vai até sua casa e as aulas são particulares. É aqui que entra a amiga Laís Badaró, que parou sua vida e viajou para ajudá-la com o idioma.

Na última quinta-feira, o coração de Laís quase parou. Modo de dizer. Sua mãe voltou ao Brasil para dar andamento à sua própria vida, suspensa depois do acidente. Ela teve de abandonar o emprego em uma fábrica de sapatos para viajar para Miami. Depois de sete meses, foi a primeira vez que elas se separaram. Odete voltará no dia 16 de outubro.

No fim do ano, a filha também voltará ao Brasil para as festas. Além disso, quer iniciar um projeto para ajudar pessoas com problemas de acessibilidade no País, mas não vai interromper o tratamento em Miami. Os médicos reconhecem a força interior da ex-ginasta para entender e conviver com a sua condição. Comemoram seu estado de espírito tanto quanto a respiração e a alimentação.

A ex-atleta fala baixo, outra sequela do acidente, mas se mostra serena e até sorri em alguns momentos. Transmite uma energia boa, não foge das perguntas. Essas coisas chamaram a atenção no evento em que foi homenageada pela seleção brasileira – ela ganhou uma camisa autografada. Na semana passada, foi a um show de Caetano Veloso em Miami e se emocionou com o apoio dos brasileiros. Está retomando a vida social. “Não me sinto confortável com essa posição. Eu fico muito parada. Às vezes, reservo um tempo só para chorar”, diz Lais. “Mas passa”. No fim do dia, ela está exausta. Às vezes, nem acorda quando sua mãe a troca de posição na cama – uma, duas, três vezes. E o novo dia de Lais está só começando.

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A trajetória de Lais Souza na ginástica brasileira

Ex-atleta participou dos Jogos Olímpicos de 2004 e 2008 e contribuiu com melhor resultado da história da ginástica artística

Gonçalo Junior - Enviado Especial - Miami, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2014 | 18h39

Lais participou dos Jogos Olímpicos de 2004 e 2008, quando ajudou a seleção de ginástica artística a conquistar o melhor resultado de sua história: sétimo lugar por equipes. Classificada para Londres/2012, ela já treinava em solo britânico quando sofreu uma lesão na mão direita e ficou fora do torneio, que começaria em 13 dias.

Nos Jogos Pan-Americanos de 2003 e 2007, Lais conquistou uma medalha de prata e três de bronze. Sua especialidade era o salto sobre o cavalo, prova em que foi medalhista de prata na Copa do Mundo de 2005 e levou um de seus bronzes pan-americanos. Desde 2013, a ginasta vinha se dedicando ao esqui aéreo, modalidade dos Jogos de Inverno. Ela aguardava a confirmação de sua classificação para a Olimpíada de Sochi, no ano passado, quando sofreu o acidente. Ironicamente, a confirmação da classificação chegou um dia depois.

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Esperança de Lais é pesquisa pioneira com células-tronco

Ex-atleta é a primeira pessoa a receber autorização do governo norte-americano para este tipo de tratamento

Gonçalo Junior - Enviado Especial - Miami, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2014 | 17h00

Lais é a primeira pessoa tetraplégica a receber autorização do governo norte-americano para iniciar um tratamento experimental com injeções de células-tronco, em um procedimento aprovado pelo FDA. Foram retiradas células da bacia e da pélvis e injetadas no local da lesão em duas aplicações, maio e junho. A última será feita neste mês.

De acordo com Antônio Marttos, médico de Lais, as células-tronco têm potencial para recuperar aquelas que foram prejudicadas pela lesão da medula. “Não vamos prometer nada sobre até aonde a Lais pode ir. Temos de perder a ansiedade. Não vai acontecer amanhã. São meses para as coisas acontecerem no corpo dela”. Mover os membros superiores, de alguma forma, já seria um grande ganho de qualidade de vida. No momento, ela mexe só os ombros.

A cada aplicação, feita com células retiradas de sua pélvis, ela fica quatro dias na UTI. Seu nome foi colocado à frente de mais de 70 pessoas que também estavam na fila. “Estamos diante da maior operação médica de esportes que já se montou no mundo para atender uma atleta que merece atenção privilegiada”, disse Marttos. Mesmo com a cautela dos médicos, a ex-atleta diz que está percebendo mudanças positivas. “Tenho percebido mais sensibilidade nos pés e mãos, um pouco no braço, barriga, costelas. Nos braços sinto que a sensibilidade vem aumentando de cima para baixo”.

O tratamento está sendo desenvolvido pelo Miami Project to Cure Paralysis, o maior centro do mundo dedicado à cura da paralisia. Trata-se de uma pesquisa ousada que, segundo os médicos, pode ser comparada à divisão do átomo ou a viagem à Lua. O próximo passo será a aplicação de células nervosas retiradas da perna, conhecidas como células Schwann. Esse tratamento é feito apenas em fases agudas (logo após o acidente), de lesões torácicas ou testes com animais. Os bons resultados motivaram a aplicação no caso Laís.

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