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Antero Greco
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Lavada palestrina

O constrangimento provocado outra vez pela seleção, em menos de um ano, merece novos comentários. Não se pode deixar a poeira baixar e considerar o fiasco no Chile como natural e corriqueiro. Isso é o que desejam Dunga, Gilmar, jogadores e cartolas. Mas a surra que o Palmeiras aplicou no São Paulo, na tarde de ontem, rouba o foco e merece ser ressaltada.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2015 | 02h03

Em primeiro lugar porque lavou a alma dos palestrinos, carentes de momentos épicos na história recente. E, também, por situações no clássico que mostraram caminho que o time da CBF poderia ter seguido na Copa América para compensar a transição e a fragilidade técnica.

O Palmeiras, assim como o Brasil, não dispõe de craques a jorrar pelo ladrão. Ao contrário, tem elenco mediano, para o gasto e com potencial para crescer. Igualzinho ao grupo que Dunga levou para o torneio sul-americano. Com vantagens adicionais: ele pôde escolher quem quisesse e ainda contava com Neymar até a suspensão.

Na prática, porém, as circunstâncias aproximaram clube e seleção. Ambos necessitavam de afirmação diante de desconfiança geral. O pessoal da amarelinha infelizmente não soube interpretar de maneira correta o período delicado que atravessa. Já os palmeirenses entenderam e tiveram a inteligência de captar a oportunidade que apareceu no duelo no Allianz Parque.

A partida andava equilibrada no primeiro tempo, Palmeiras começou melhor, o São Paulo reagiu - até mandou uma bola na trave e outras duas vezes foi com perigo ao ataque. Daí, funcionou a percepção de Marcelo Oliveira e jogadores. A alternativa foi reforçar o meio-campo, fechar espaços tricolores e, com a bola recuperada, lançar-se à frente com rapidez e sobretudo com movimentação. Muita.

Dudu, Leandro, Rafael Marques, Robinho, além de Arouca, Lucas e Egídio (muito bem), giraram pra todo canto, trocaram passes e com isso confundiram o sistema defensivo do São Paulo. O primeiro gol saiu dessa maneira (apesar do desvio em Souza), o segundo em cobrança de escanteio. Mas o terceiro e o quarto foram uma lição de contragolpe eficiente: toques simples, diretos, práticos, deslocamentos e conclusão a gol. Os são-paulinos eram pegos desprevenidos, e quanto mais se expunham tanto mais estavam entregues e abertos para novos gols.

Não se trata de apologia da retranca, Deus nos livre e guarde. A mentalidade do "1 a 0 está bom" corrói nosso futebol. Apenas constatação de como atrair rival para prendê-lo numa armadilha pode revelar-se estratégia convincente em determinadas situações. Principalmente para um time que não se firmou ainda e que se ressente de astros - casos de Palmeiras e seleção.

O São Paulo acusa os golpes que tem recebido - e não são poucos. Vários integrantes do elenco saíram ou arrumam as malas; problemas financeiros afetam pagamentos; o técnico chegou de fora recentemente e tem gente que não há maneira de acordar. Pato e Ganso com a palavra. Aí é difícil.

Segunda linha. O projeto de demolição do mito em torno da seleção dá frutos; a Copa América aí está para comprovar. A mentalidade estreita que se tornou padrão leva à perda de temor e respeito que há 60 anos, no mínimo, o mundo tem pelo futebol do Brasil. Dunga segue o padrão de antecessores, incluído aí ele próprio (2006-2010), de buscar resultados, e apenas isso, e descuidar da construção de fato de uma equipe e respectiva maneira de jogar.

Em vez de só eventualmente jogar de forma "pragmática" (como no caso de ontem do Palmeiras), a obsessão tem sido a de engordar a qualquer custo as estatísticas positivas. Abriu-se mão das tabelas, da ousadia, do jogo coletivo com criatividade, em favor do grupo compactado, da marcação como prioridade (e finalidade), do não perder.

O Brasil exportou talentos e modelo copiados com sucesso pelos gringos. Importou teses que eles - ao menos os grandes - descartaram.

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