Lavagem de roupa suja na pista

Edson Luciano, medalhista olímpico, e o técnico Jayme Netto brigam feio

Sandro Villar, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

Bate-boca, troca de ofensas, acusações de traição, calote, abandono. Terminou assim, em clima de guerra e baixaria, a longa relação de amizade e de sucesso profissional de dois importantes personagens do atletismo brasileiro. De um lado, o ex-atleta Edson Luciano Ribeiro, dono de duas medalhas olímpicas no revezamento 4 x 100 metros rasos - bronze em Atlanta/1996 e prata em Sydney/2000; do outro, Jayme Netto Júnior, um dos melhores treinadores nacionais.A briga entre os dois ficou tão feia que foi parar na Justiça. O treinador entrou na sexta-feira com um processo criminal contra o velocista, por injúria, calúnia e difamação.A desavença começou em 2005, quando Edson Luciano foi dispensado por Jayme da APA - Associação Prudentina de Atletismo, atual Associação Paulista de Atletismo. Estavam juntos desde 2001. A demissão desencadeou uma série de acusações. O atleta diz que foi ludibriado pelo técnico, que o pagava com dinheiro obtido com patrocinadores. De acordo com Luciano, a equipe tinha sete."Ele me mandou embora alegando falta de dinheiro. É um mentiroso, pois vi um contrato com a Brasil Telecom no valor de R$ 95 mil (mensais)??, ataca. "Achava que ele era amigo, mas estava me dando uma rasteira.??O atleta diz que recebia R$ 6 mil mensais e, meses antes da demissão, teve o salário reduzido para R$ 1,5 mil. Naquela época, recuperava-se de cirurgia no calcanhar esquerdo. "Na hora em que eu mais precisava, me mandou embora, me abandonou??, reclama o ex-atleta, que atualmente integra o projeto da Caixa Econômica Federal que beneficia medalhistas olímpicos e tem uma empresa de eventos em Bandeirantes, cidade paranaense onde nasceu.O técnico garante que a APA estava mesmo com problemas de caixa. Segundo Jayme, a BT reduziu drasticamente o valor do patrocínio a partir de 2004 e por isso foi necessário rever o salário dos atletas. "Nos anos de 2004 e 2005 a APA recebeu R$ 55 mil (mês). Em 2006, a Brasil Telecom pagou R$ 16 mil.??Ao contrário do que diz Luciano e os outros atletas, Jayme nega ser gerente da APA. "Eu não gerenciava valores, era apenas o treinador e as dispensas eram feitas pela diretoria atendendo ao patrocinador.??Luciano reclama R$ 19,5 mil em salários atrasados (três meses), mesmo valor que não teria sido pago a Sabrina Manzolli - mulher do velocista. Sabrina tomou atitude mais drástica que o marido. Recorreu à Justiça Trabalhista contra a APA, reclamando o não-pagamento de salários, 13º salário, férias, vínculo empregatício e outros direitos referentes ao período em que era contratada pela associação. Há alguns dias, perdeu em primeira instância. Eronildes Nunes de Araújo (pleiteia cerca de R$ 250 mil) e Josiane Tito também processam a APA pelos mesmos motivos.APROVEITADOREdson Luciano também ataca a ganância do treinador. "Ele ficou rico às nossas custas??, acusa. "Jayme é competente, ajudou muita gente, mas foi mais ajudado do que ajudou.??O técnico retruca: diz que seus bens - lista uma casa, um apartamento e uma quitinete -, foram adquiridos entre 1990 e 1998, antes da fundação da APA. "Fruto do meu salário como professor de Educação Física e de Fisioterapia da Unesp, onde leciono desde 1982.??Quem também se diz vítima de Jayme é a carioca Joseane Tito. Sua chiadeira é por não ter recebido um bônus de R$ 20 mil que teria sido prometido pela BT para os oito melhores atletas dos Jogos Mundiais Adultos de 2005, na Finlândia. Na competição, a equipe brasileira do revezamento 4 x 400 m (formada por Joseane, Lucimar Teodoro, Geisa Coutinho, Maria Laura Almirão e Amanda Fontes) ficou em sexto lugar. Mas cometeu um erro na passagem do bastão e foi desclassificada. Mesmo assim, Josiane considera que tinha direito ao prêmio, alegando que o contrato com a BT previa o pagamento."Ele prometeu e não cumpriu. E ainda me demitiu sem avisar??, grita Josiane. "É mau-caráter, autoritário e faz falcatruas. Não é confiável, ele ganha mais do que quem corre.??Netto rebate. "Quando é desclassificada, a equipe perde o direito à premiação oferecida pela Confederação Brasileira, pela Federação Internacional e pelos patrocinadores. Assim, não tem direito ao bônus.??

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