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Antero Greco
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Legado largado

Alguns estádios do Mundial-14 são gigantes inúteis. Várias arenas da Rio-16 estão ao léu

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2017 | 06h00

De 2007 a 2016, o que mais se ouviu, de autoridades esportivas e governamentais, foi a palavra legado. Era legado da Copa aqui, legado dos Jogos ali, legado disto e daquilo para o Brasil e para a população. O termo mágico surgia na boca dos sábios de plantão sempre que se questionava a necessidade de erguer tantos estádios e instalações olímpicas, com os custos astronômicos que eles embutiam.

Para a tropa envolvida na organização dos duas megamanifestações, qualquer referência a desperdício não passava de indício de má vontade e azedume gratuito. Quase atitude antipatriótica. Quando, na maioria das vezes, apenas se cobravam as explicações convincentes e precisas.

O tema foi abordado diversas vezes neste espaço, e não raro com reações negativas, de cartolas e de leitores. No caso do futebol, defendi a realização do torneio de 2014, por entender que era deferência merecida, pela tradição e história da seleção. Com a ressalva, desde o primeiro momento, de que corríamos o risco de ver monumentos à desfaçatez, sobretudo quando o ex-todo-poderoso da CBF garantia que seriam bancados pela iniciativa privada.

A postura em relação à Olimpíada era diversa. Em dezembro de 2009, na sexta-feira em que o Rio foi escolhido como sede, escrevi que gostaria de Olimpíada aqui só depois que nos tornássemos uma nação que olhasse para o esporte como prática adicional de programas de saúde, de currículo escolar e de integração social. Previa que deixaríamos escapar essa chance nos sete anos que precederiam o evento. 

Não se tratou de exercício de adivinhação, tampouco profecia; só postura de bom senso e ceticismo, com base em décadas de experiência na área. Infelizmente, não deu outra. As festas foram magníficas, com todos os senões, alguns nada diferentes do que ocorrera em centros adiantados e badalados, como Itália, EUA, Espanha, Austrália, Inglaterra, Alemanha. Nada que tirasse de nosso brilho de bons anfitriões.

A bomba estourou na forma de... legado! Como o previsto. Dias atrás, o Estado expôs a situação constrangedora de estádios como os de Natal, Cuiabá, Brasília e até o Maracanã. O maior símbolo futebolístico brasileiro é também a síntese de desdém com dinheiro e patrimônio públicos. Nesse balaio entra a Arena Corinthians, obra faraônica que se mostra impagável. 

Durante a semana, o portal Globoesporte.com trouxe a outra parte do legado largado: inúmeras instalações usadas nos Jogos do Rio estão sem cuidados, acumulam lixo e entulho, caíram em abandono ou são pouco utilizadas. O Parque Aquático, erguido por R$225,3 milhões, está sendo desmontado, assim como a Arena do Futuro, onde se disputaram jogos de handebol.

Como foi cancelada licitação para o Parque Olímpico, o Ministério do Esporte assumiu o controle de uma parte, enquanto outras estão a cargo do Estado e até do Comitê Organizador. O que encantou a todos, oito meses atrás, já se deteriora. 

A fatura quem paga? Sim, nós. E o dinheiro pra onde foi? Sabe-se lá...

BOLA PRA FRENTE

 Palmeiras e São Paulo estreiam hoje no estadual, cercados de expectativa e sob a direção de novatos. O campeão brasileiro representa desafio e enorme oportunidade para Eduardo Baptista se firmar como técnico de ponta. O Tricolor aposta que o carisma de Rogério Ceni como jogador perdure agora que se transformou em professor. 

Eduardo tem vasto elenco à disposição, com a missão de moldá-lo para títulos, sobretudo o da Libertadores. Será cobrado, na proporção idêntica aos projetos ousados do clube. Rogério tem trupe reduzida, sinal de recursos exíguos em investimentos. Se fizer bom papel, será ainda mais endeusado no Morumbi. Mas não faltarão cobranças. É a sina dos treinadores.

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