Lego catalão

No início de maio, ao final da quarta partida consecutiva contra o Real Madrid, o Barcelona estava classificado para a final da Uefa Champions League, mas Pep Guardiola não parecia satisfeito. Mesmo um time quase perfeito precisava mudar.

PAULO CALÇADE, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2011 | 03h03

Ao povoar o meio de campo dos merengues para deter Xavi, Iniesta e Messi, José Mourinho havia criado dificuldades demais durante os 20 dias mais tensos do futebol espanhol nas últimas décadas. O time com Valdés, Daniel Alves, Piqué, Puyol e Abidal, Busquets, Xavi e Iniesta, Pedro, Messi e Villa estava certinho demais.

Guardiola superou os ingleses na final da competição europeia e iniciou as mudanças. Trouxe Fábregas do Arsenal, contratou Alexis Sanchez da Udinese e promoveu Thiago Alcântara ao grupo principal. E assim começou a desenhar um novo Barcelona, com a mesma mobilidade de sempre, mas agora com flexibilidade tática superior. Mourinho desencadeou o processo e experimentou a inovação, o LEGO catalão, que se monta, desmonta e remonta. Depende apenas da imaginação.

Sábado, a primeira surpresa estava na escalação do Madrid, mantido no 4-2-3-1 quando se acreditava na repetição da fórmula do primeiro semestre. O gol de Benzema, aos 21 segundos, transformou-se numa oferenda para quem professa o contra-ataque, ainda mais com Özil, Di Maria e Cristiano Ronaldo para implementá-lo.

O Barcelona tinha dificuldade para superar a marcação. O novo time de Guardiola apresentava a defesa titular (Daniel Alves, Puyol, Piqué e Abidal), o meio de campo clássico (Busquets, Xavi e Iniesta) e o gênio (Messi). Mas não era suficiente, finalizava pouco e se mantinha distante do gol de Casillas, pelo menos até os 29 minutos da primeira etapa, quando o argentino superou a marcação e deu ótima assistência para Alexis Sanchez empatar.

Pep mudou a estrutura tática, brincou com suas peças e redefiniu os espaços, instalando-se na defesa do Madrid. Até agora não se falou aqui do sistema tático do Barcelona. A representação numérica, tão importante para definir uma equipe, como se fosse seu DNA, agora é secundária, pois o que interessa é a movimentação, a versatilidade do jogador.

O novo Barcelona muda a maneira de jogar sem usar o banco de reservas. Daniel Alves foi lateral, jogou no meio de campo e explorou o setor de Marcelo como se fosse um ponta. Busquets foi zagueiro sem a bola e volante com ela. Messi? Bem, esse faz o que quiser, desde que faça.

No segundo tempo a posse de bola do Barça chegou a 60%, com espetáculo particular de Iniesta. Desde 2008, em 208 partidas oficiais com Guardiola, jamais os catalães permitiram ao adversário ter o gostinho de passar mais tempo com a pelota nos pés. Se Santos e Barcelona se enfrentarem, Muricy já sabe: será necessário marcar e jogar muito para vencer as novidades de Pep, pois o Barça não joga futebol, o Barça brinca com LEGO, monta, desmonta, remonta.

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