Carlos Osorio|AP Photo
Lei sancionada na Califórnia pode mudar modelo esportivo dos EUA Carlos Osorio|AP Photo

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Lei sancionada na Califórnia pode mudar modelo esportivo dos EUA

Atletas amadores poderão fechar acordos de patrocínio; mudança afetará brasileiros que buscam estudar no país

Felipe Laurence , especial para o Estado

Atualizado

Lei sancionada na Califórnia pode mudar modelo esportivo dos EUA Carlos Osorio|AP Photo

O sistema esportivo norte-americano é considerado um exemplo mundial. A possibilidade dada às pessoas de conseguirem educação de qualidade por conta das suas habilidades atléticas é um paradigma que vários países, incluindo o Brasil, tentam emular sem sucesso. Os Estados Unidos se tornaram uma grande potência esportiva muito por conta deste modelo que teve poucas modificações desde sua criação no início do século 20, mas uma lei aprovada na Califórnia no fim de setembro promete transformações profundas nos próximos anos.

Sancionada pelo governador democrata Gavin Newsom e com muito apoio de LeBron James, a lei SB-206, apelidada de Fair Pay to Play Act (Lei do Pagamento Justo para Jogar, em tradução livre), muda as diretrizes das universidades no estado norte-americano e dá a permissão aos atletas de fecharem acordos de patrocínio, lucrarem com seu próprio nome e imagem e contratar empresários para cuidarem deus seus negócios.

No modelo atual, os atletas universitários são considerados amadores e, tirando a bolsa de estudos, não recebem compensação pelo seu trabalho. A visão que a Associação Atlética Universitária Nacional (NCAA, em inglês), entidade que agrega as universidades, tenta passar é que eles são estudantes que praticam esportes nas horas vagas. Especialista consultado pelo Estado afirma que no início era assim, mas hoje a situação evoluiu para um ponto em que há pouca diferença entre os universitários e os profissionais.

"Sempre foi interesse da NCAA manter os esportes universitários como amadores, separados dos profissionais, e esse sistema atualmente está sob questionamento", explica Andrew Brandt, diretor do curso de direito desportivo da Universidade de Villanova, na Filadélfia, e ex-executivo do Green Bay Packers da NFL. "O conceito de amadorismo mudou no momento em que as universidades começaram a ganhar milhões de dólares."

No futebol americano e no basquete, os dois esportes mais populares nos Estados Unidos, as universidades têm receitas anuais na casa dos bilhões por conta de contratos televisivos, venda de ingressos e de vestuário. Levantamento feito pela revista Forbes neste ano aponta que as 25 universidades mais valiosas do futebol americano têm, em média, receita de 2,7 bilhões de dólares (R$ 10,7 bilhões) com o esporte. No basquete, a média das 25 universidades mais valiosas é de 52 milhões de dólares (R$ 207,9 milhões) em receitas.

"Os jogadores e fãs começaram a perceber que há uma "discrepância entre o que as universidades faturam com o esporte e a compensação que os jogadores recebem”, diz Brandt. Os valores das bolsas pagas aos atletas varia de acordo com a universidade, mas não garante a subsistência dos jogadores, principalmente os que saem de classes socioeconômicas mais baixas, uma vez que os gastos nas universidades são elevados.

"Do dinheiro que Tulane me pagava mensalmente, não sobrava muita coisa", diz Cairo Santos, brasileiro que estudou na Universidade de Tulane, em Nova Orleans, e foi escolhido como o melhor kicker do futebol americano universitário em 2012. “Não queria que meus pais continuassem a me ajudar financeiramente depois do colegial porque tinha sido caro bancar os três anos que fiz de intercâmbio."

O jogador explica que fazia bicos como árbitro de jogos de futebol dentro de Tulane para complementar sua renda, mas soube de histórias dramáticas de colegas na universidade. “Colegas de time vendiam drogas para conseguir um dinheiro extra porque suas famílias não podiam ajudar tanto.”As regras draconianas impostas aos jogadores fazem com que até mesmo aceitar um almoço de graça no campus possa ser caracterizado como violação e possa custar a bolsa de estudos. "Os jogadores são instruídos com detalhe sobre o que pode e não pode fazer para que nossa elegibilidade se mantenha”, diz Santos. “Todo mundo achava um absurdo."

A lei aprovada na Califórnia vai entrar em vigor somente em 2023, dando um prazo de quatro anos para as universidades se adaptarem à nova realidade. Andrew Brandt acredita que a norma ainda será alvo de questionamentos na Justiça norte-americana e diz que a própria NCAA deve tentar afrouxar suas regras para conter a opinião pública. Na última terça-feira, a liga universitária anunciou que vai permitir o pagamento de direitos de nome e imagem a jogadores universitários, mas não deu maiores detalhes de como será feito esse procedimento ou quando ele se iniciará. Para Brandt, essa é uma forma da NCAA de ganhar tempo. "O objetivo deles é trabalhar melhor essa ideia e ao mesmo tempo tirar a pressão da opinião pública."

No momento em que sancionou a lei, o governador da Califórnia disse que o propósito não é somente fazer justiça social para os jogadores universitários, mas também incentivar outros Estados a criarem legislações semelhantes. "Esperamos que essa discussão se expanda para outros estados e que isso crie uma onda irreversível em que a NCAA não consiga se esconder", contou Newsom em vídeo divulgado nas redes sociais.

Mudança pode ser benéfica para brasileiros

Em 2018, aproximadamente três mil adolescentes aproveitaram suas habilidades esportivas e conseguiram bolsa de estudos para fora do Brasil, 20% a mais do que no ano anterior. Segundo Maura Leão, presidente da Belta (Associação de Agências de Intercâmbio do Brasil), que elaborou o estudo, a nova lei da Califórnia pode aumentar o interesse de brasileiros que querem jogar nos Estados Unidos.

“Tende a aumentar o número de brasileiros na realização de intercâmbios esportivos para a Califórnia diante dessa nova lei”, diz Maura. “Os atletas universitários não serão punidos ao receberem aporte dos patrocinadores.” Para a executiva, a tendência é aumentar a procura nos próximos anos por esse intercâmbio.

Clayton Lovett, fundador da CS Educacional, empresa especializada em intercâmbios esportivos, concorda que o interesse dos brasileiros vai aumentar, mas ainda falta um entendimento melhor das regras da NCAA. “Uma das maiores surpresas de famílias que nos procuram é quando falamos que os atletas não recebem nada jogando lá”, explica Lovett. “A possibilidade de um atleta lucrar com sua própria imagem, conseguir criar um perfil legal nas redes sociais, um canal no YouTube, e isso não ser mais uma violação nas regras da NCAA, simplifica bastante as coisas”, avalia.

Lovett diz que desde a aprovação da lei na Califórnia algumas pessoas já buscaram sua empresa para saber mais detalhes, mas se decepcionam quando descobrem que a lei só entrará em vigor em 2023.

 

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Atletas olímpicos também são afetados por mudanças de legislação nos EUA

Base dos medalhistas norte-americanos é formada nas universidades

Felipe Laurence, especial para o Estado

30 de outubro de 2019 | 10h59
Atualizado 30 de outubro de 2019 | 15h28

Aprovada pela Califórnia no final de setembro, a lei SB-206, apelidada de Fair Pay to Play Act (Lei do Pagamento Justo para Jogar, em tradução livre), foi criada pensando essencialmente no futebol americano e no basquete por conta das enormes receitas geradas por estas modalidades, mas os atletas de esportes olímpicos serão afetados de forma importante quando a mesma entrar em vigor, a partir de 2023. Sempre liderando o quadro de medalhas em todas as edições da Olimpíada desde 1996, os Estados Unidos têm a sua base de atletas que sobem ao pódio nos Jogos Olímpicos formada pela Associação Atlética Universitária Nacional (NCAA, na sigla em inglês).

“Somos obrigados a pedir uma carta da organização do evento dizendo que abrimos mão das premiações para não perdermos a bolsa de estudos”, explica Cesar Cielo, um dos maiores nadadores na história do Brasil e que nadou pela Universidade de Auburn, no Alabama, antes de aparecer para o mundo nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. “Contava com ajuda do meu pai para cobrir meus gastos pessoais.”

Cielo, que foi escolhido como o nadador do ano na NCAA em 2007, diz que na natação e em outros esportes olímpicos a nova lei afetaria principalmente atletas que já competem em alto nível nas competições internacionais. “Consigo entender os dois lados do argumento sobre essa lei, mas acho que na natação valeria uma análise caso a caso.”

Após se destacar no Mundial de Natação e nos Jogos Pan-Americanos em 2007, Cielo resolveu abrir mão do seu último ano na universidade para se profissionalizar e buscar patrocínios para os Jogos Olímpicos do ano seguinte. “Pensei que, mesmo se ganhasse só uma medalha de bronze, isso já me daria uma possibilidade de fazer um dinheiro maior do que ficar com a bolsa em Auburn.”

Desde 2015, o Comitê Olímpico dos Estados Unidos (USOC) e a NCAA têm um acordo em que os atletas medalhistas podem depositar o bônus dado pelo próprio comitê em um fundo que será sacado após sair da universidade. Premiações das competições e por quebras de recordes mundiais, no entanto, ainda são proibidas.

O caso da norte-americana Missy Franklin, que foi um dos destaques da natação norte-americana nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, é emblemático. Ela ganhou quatro medalhas de ouro e estabeleceu dois recordes mundiais na competição, mas precisou abrir mão de qualquer premiação porque ainda não tinha nem entrado na universidade e, caso recebesse, não poderia receber uma bolsa de estudos.

“Ela teve uma carreira universitária complicada e acabou não repetindo os resultados que teve antes de entrar na NCAA”, lamenta Cielo. “Tenho certeza de que esta lei estivesse sendo discutida naquela época ela poderia estar com um dinheiro legal para o resto da vida.”

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