Lembranças de duas noites épicas

Futebol não é uma atividade para se fazer muitos amigos. Jogadores se conhecem, jogam juntos por algum tempo, geralmente pouco, e logo cada um vai para seu lado. Futebol mais separa do que une, principalmente de uns 15 anos para cá, quando os deslocamentos e as transferências se tornaram regra. É muito comum no início das partidas jogadores se cumprimentarem, se abraçarem mesmo, como se não se vissem há muito tempo, afastados pelos azares da profissão. Nesses encontros, efêmeros, rápidos, às vezes saudosos e nostálgicos, nessas velozes trocas de palavras e sorrisos, velhas conquistas, velhas vitórias e derrotas passam fugazmente, como fragmentos de carreiras que se entrecruzaram por algum tempo.Se para quem joga junto a amizade não é coisa que se conserve tão facilmente, para quem se conhece só como adversário os laços são estabelecidos pelos duelos inesquecíveis que travaram. Certas partidas ficam gravadas para sempre na lembrança dos torcedores, mas muito mais na de quem jogou. Jogos decisivos, nos quais se arriscava tudo, daqueles de arrepiar, jogos emocionantes em que as duas equipes tinham iguais chances de vencer, tinham times igualmente fortes e em que havia respeito genuíno pela capacidade do adversário.Quem disputa um jogo desses, não importa de que lado, está unido para sempre. Com o tempo essas grandes partidas são sobrepujadas por outras, mas de alguma forma permanecem flutuando por aí, prontas para mostrar que ainda estão vivas.Imagine-se então o que é participar, não de uma, mas de duas partidas dessas históricas, por exemplo as duas partidas jogadas entre Corinthians e Palmeiras que decidiam quem iria jogar a final da Libertadores de 2000. Quem viu aqueles jogos não esquece, quem participou, menos ainda. Foram partidas épicas, quase obras de ficção, com resultados elásticos, reviravoltas e surpresas no marcador, dignas de qualquer grande filme de suspense. E, para coroar, decididas em pênaltis. Houve é claro heróis e vilões, mas sobretudo, creio, marcas profundas em todos os que participaram desses gloriosos jogos.Como dizia antes, essas partidas imortais ficam suspensas em algum lugar, esperando reaparecer. Neste Campeonato Paulista que está apenas no início, dois jogadores vão entrar em campo, nas mesmas posições que ocupavam naqueles jogos. Vão novamente se enfrentar, e quando se enfrentarem não será mais num Morumbi lotado, quase com certeza não haverá televisão, e a partida que disputarem será um apenas um resumo da rodada, num canto de página. Vão jogar num estádio pequeno e num campo não exatamente "apropriado para a prática do futebol??, como se dizia antigamente. Ao contrário, será num desses "gramados?? que, pela precariedade, estão incomodando Luxemburgo e Muricy.Ao entrarem em campo, vão se cumprimentar como velhos conhecidos que por algum tempo dividiram as atenções de grandes torcidas e da imprensa. Talvez sejam os respectivos capitães de seus times e é possível que troquem algumas palavras cordiais, enquanto pelas suas cabeças vão passar como relâmpagos cenas daquelas noites do Morumbi cheio. Quando Juventus e Sertãozinho modestamente se enfrentarem, hoje, às 18h10, neste Paulista, com Vampeta de um lado e Galeano do outro, de algum modo aquelas duas antigas e inesquecíveis partidas também vão estar presentes e viver novamente.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.