Libertadores é ópera

É incrível como alguns clubes ainda não aprenderam que os campeonatos têm alma. Que não é possível jogar a Libertadores como se joga um Estadual. Que a conquista da América não é possível sem sangue, suor, lágrimas, prantos e ranger de dentes. O Corinthians foi a primeira vítima da atitude modorrenta, favorecida por um início de temporada de campeonatos estaduais cheios de jogos contra galinhas-mortas, e disputados sob calor escaldante. O Fluminense - ao menos o Fluminense do primeiro tempo contra o Argentinos Juniors - foi a segunda vítima dessa atitude menos ligada. Santos, Cruzeiro, Inter e Grêmio que abram o olho.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

Não é a primeira vez que escrevo sobre a alma dos campeonatos, algo que pode soar filosófico, mas que os fatos sinalizam que não é bem assim. Uma Libertadores é muito diferente de uma Copa do Brasil, assim como um Brasileirão nada tem a ver com um campeonato estadual. Não é por acaso que alguns times e países são grandes especialistas em torneios disputados no estilo de copa, enquanto outros são mestres nos pontos corridos. O Independiente, da Argentina, é um bom exemplo de time "copeiro" - e não por acaso é chamado de "El Rey de Copas". Já o River Plate, outro argentino, ao longo da história mostrou imensa vocação para conquistar os campeonatos de pontos corridos, mas está longe de ser um papão de copas. É claro que alguns são bons nas duas modalidades, como o São Paulo e o Boca Juniors. Mas os exemplos mostram o quanto campeonatos, países e clubes têm, sim, alma.

Na Libertadores, jogos são disputados com uma rivalidade tão renhida que pode levar algum desavisado a imaginar que está vendo confrontos de outra modalidade - e não do velho esporte bretão. Comparar um jogo da Libertadores com um jogo de campeonato estadual é quase como comparar uma partida de futebol americano com uma de rúgbi. Seja pela importância do título, seja pela rivalidade histórica dos países, as disputas da Libertadores estão sempre um tom acima das demais. Estadual é musical ligeiro. Libertadores é ópera: disputas duríssimas, violência, discussões, vendettas, emoção à flor da pele, morte. Morte? Bem, não exatamente. Mas quem, como eu, já foi ver seu time jogar com o Boca em Buenos Aires sabe que o medo da morte não chega a ser um sentimento tão distante assim.

Se existisse um recurso tecnológico capaz de alterar as cores das camisas dos times e esconder a arquitetura dos estádios, ainda assim eu conseguiria observar uma partida e dizer: é jogo de Libertadores! Bastaria observar como os jogadores dão carrinhos com um pouco menos de cautela, como as travas das chuteiras são elevadas um pouco mais numa dividida e como um pequeno entrevero logo se transforma em bate-boca ou pancadaria, para chegarmos à fatídica conclusão: a Libertadores tem alma operística. E essa alma operística exige que as disputas não sejam vencidas apenas com talento. Hay que ser guapo! Hay que pelear! Hay que endurecer - como diria um Che Guevara de boina e chuteiras. Entra ano e sai ano, regras mudam, novas normas disciplinares são adotadas, árbitros são treinados para acalmar as coisas... e a Libertadores não muda sua essência.

Os outros campeonatos têm alma? Claro. Nenhum deles morrerá pagão. A Copa do Mundo tem um quê de fervor religioso, onde há mais respeito do que ódio entre os adversários. A Champions League é cercada de solenidade. Algo bem próximo da Copa do Mundo, só que sem a mesma contrição. Campeonatos como o Inglês, o Italiano e o Brasileiro são tours de force: verdadeiras epopeias nas quais o campeão é também o time mais resistente. Ainda bem que os campeonatos têm alma. Seria muito chato se todos os jogos fossem cercados sempre da mesma atmosfera. Mas fica a advertência: quem quiser botar a América no bolso deve pensar em ópera. Ou em Guimarães Rosa, que poderia filosofar que esse torneio é como o Sertão. "Libertadores é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus, mesmo, se vier, que venha armado."

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