Lições da terra de gigantes

A desigualdade é mais que uma tendência, é a porta do abismo. Juntos, Barcelona e Real Madrid, os gigantes do futebol mundial, abocanharam 52% das receitas disponíveis na Espanha na temporada 2010-2011. Superlativos e insensíveis, ignoram os outros 18 competidores.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2011 | 00h00

São incapazes de perceber a sua importância para a formação do mercado interno. Diante disso, sempre haverá um gênio para defender um torneio multinacional, o clubinho privado das superpotências futebolísticas europeias.

Diferentemente de outras ligas, o Brasileirão não começa com 50% de chances de você acertar o campeão, como acontece aqui na Espanha.

Barcelona e Real Madrid dominaram os sete últimos campeonatos, transformando-os em competição particular. O custo disso é um massacre na economia da concorrência.

É como a elite da bola imagina resolver seus problemas, acabar com a pobreza eliminando os pobres. A rivalidade desmedida entre merengues e blaugranas seguramente os mantém ativos e cada vez mais fortes, enquanto destroem a liga que diz ser das estrelas.

Mas onde estão elas? Real, Barça, Atlético de Madrid, Valência e Málaga, agora impulsionado por dinheiro do Catar, respondem por 83% dos investimentos para a temporada 2011-2012.

Por mais problemas que a dupla possa encontrar pelo caminho, é razoável imaginar números parecidos aos da última competição. O Barça foi campeão com 84% de aproveitamento, o Real ficou com 81%. Jogaram sem adversários.

Trata-se realmente de um abismo. O Valencia, terceiro colocado, faturou o título simbólico da "Liga dos Outros" com rendimento de 62%, bem inferior ao dos primeiros colocados, mas número adequado ao seu tamanho. É impossível enfrentá-los no campo, por isso bastou uma rodada para o Sevilla costurar um movimento pela divisão mais justa do dinheiro de transmissão.

O acordo é individual, sistema adotado recentemente pelos clubes brasileiros. A Espanha é um exemplo negativo, convém não perdê-la de vista, pode-se aprender muito com seus erros. No entanto, é fundamental mirar a Inglaterra, modelo de como dividir os recursos para manter a capacidade de investimentos de toda primeira divisão. O Manchester United, campeão da última temporada, levou 60 milhões de libras pela transmissão dos jogos, 20 milhões a mais que o West Ham, último colocado.

Assim todos têm a oportunidade de investir e ajudar a vender seu belo e competitivo campeonato a dezenas de países. O equilíbrio melhora a competição. Com 12 grandes clubes, embora nem sempre em condições de exercer sua grandeza, está claro que, com um pouco de organização, o Brasileirão poderia ter sucesso internacional.

A polarização Madrid-Barcelona é uma bomba relógio. O lado positivo do nosso persistente Nacional é justamente a quantidade de times grandes. Na vigência dos pontos corridos, desde 2003, seis clubes dividiram oito campeonatos.

Bem administrado, o Brasileiro poderia rivalizar com as principais ligas e até superá-las. Aos gestores atuais, entretanto, interessa fixar a ideia de que isso é impossível. É simples entender: a CBF trabalha com a maior marca do futebol nacional, a seleção brasileira, e não admite concorrência. Nenhum time do País é capaz de disputar o mercado internacional com a amarelinha. Portanto, os cartolas trabalham nesse sentido.

Na Espanha, mesmo com o título mundial conquistado na África do Sul, a imagem da Fúria não supera a de Real ou Barça. O problema é mesmo a polarização. Com minúscula dose de bom senso, não seria difícil criar um ambiente lucrativo para seleção e clubes no Brasil. Não custa nada aprender com as lições da terra de gigantes.

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