Lições diferentes

A Fórmula 1 ainda nem teve tempo de assimilar as lições radicalmente opostas que tirou das duas primeiras corridas e lá vem a terceira para complicar ainda mais as coisas. Porque a pista de Xangai pouco tem a ver com as outras duas. A compreensão que se teve do comportamento dos carros sob as novas regras na primeira corrida (Austrália) foi prejudicada pela baixa temperatura e por ser uma pista de rua. Na Malásia mudou tudo por causa do forte calor e a rápida degradação dos pneus. E agora na China a temperatura está no meio termo entre as duas primeiras, mas a reta onde vão ser usados os dois dispositivos criados para facilitar as ultrapassagens - o kers e a asa traseira móvel - é a mais longa de todo o campeonato, com 1.170 metros.

Reginaldo Leme, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2011 | 00h00

Em relação à da última corrida, na qual, mesmo com a abertura de asa, nem sempre o piloto conseguia completar a manobra, são 340 metros a mais. É perfeita para o funcionamento do que a gente vê no gráfico mostrado pela TV como DRS, que fica verde quando a asa está aberta, e significa Drag Reduction System (sistema de redução da resistência ao ar). Não há dúvida de que se trata de uma forma artificial de se criar a disputa de posição. Mas ela acaba sendo necessária exatamente porque, quando o carro sai de trás do outro para tentar ganhar posição, ele passa a sofrer uma resistência bem maior, também chamada de arrasto aerodinâmico, que reduz a sua velocidade. A abertura da asa visa a neutralizar esta ação.

Alguns anos atrás, quando um carro entrava no vácuo do outro, evitava parte da resistência ao ar frontal e ganhava velocidade para sair de lado e passar. Com a evolução conquistada nas duas últimas décadas por meio de túneis de vento capazes de simular algo muito próximo da realidade, este natural bloqueio do ar passou a ser vencido com mais facilidade. Ao mesmo tempo, as formas aerodinâmicas quase perfeitas do carro, além das dezenas de apêndices para criar o fluxo de ar desejado em direção à asa traseira, acabaram com a possibilidade de o carro de trás aproveitar o chamado vácuo. Ao contrário, a turbulência gerada pelo carro da frente passou a impedir a manobra.

Outra questão de grande importância neste GP diz respeito ao kers da Red Bull. Na Austrália, a equipe preferiu não usar. Na Malásia, Webber não usou e o de Vettel pifou na metade da corrida (29.ª volta). Mesmo assim, a equipe venceu as duas, mas na pista chinesa, sem o kers, vai faltar velocidade nesta grande reta. Tanto que a McLaren, mesmo tendo de usar parte do treino de sexta-feira para testar novidades no assoalho e difusor, não teve dificuldades para encostar ainda mais no tempo de Vettel (166 milésimos de segundo).

Por fim, os pneus. As 59 paradas de box que vimos na Malásia, mais do que o dobro do ocorrido em 2010, tornaram a corrida bem movimentada. A Pirelli não espera repetir a dose aqui, mas quer ver, no mínimo, duas trocas de pneus. Algumas experiências feitas no primeiro treino já deram subsídios para as equipes planejarem suas estratégias, mas o último treino livre de hoje (sábado aqui, madrugada de sexta no Brasil) será definitivo para esta definição. E existe ameaça de chuva, para complicar um pouco mais a decisão dos engenheiros.

Xangai recebe a F-1 pela oitava vez e até hoje não repetiu um vencedor. Os cinco campeões mundiais em ação, além de Kimi Raikkonen, já venceram nesta pista. Espero uma corrida boa demais, para fazer frente ao pit stop de três dias que fiz em Hong Kong, com direito a concerto de Bob Dylan. Tudo bem que o Dylan ficou me devendo alguns clássicos de suas mais de 450 canções. Depois fiquei sabendo que na apresentação de Pequim tinham sido vetadas Blowin In The Wind e Times They Are a-Changing, alguns de seus temas antiguerra, e achei desculpável. Mas liguei para minha filha mais nova, especialista em Bob Dylan, e ela me disse que ele tem feito mesmo isso. Então, tá!

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