Linha de produção põe ''cidades escondidas'' no mapa mundial

Sambrial e Sialkot, no Paquistão, vivem clima de prosperidade ao se destacarem na fabricação de bolas

Hasnain Kazim, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

O jovem paquistanês Shaukat tem 20 anos e nunca chutou uma bola. O esporte preferido em sua cidade - Sambrial, na região de Sialkot, próximo da fronteira do Paquistão com a Índia - é o críquete. No entanto, o futebol ganhou espaço importante na vida de Shaukat e da população de 500 mil pessoas que vive na região. Ali, entende-se o significado e, sobretudo, as consequências da globalização. Afinal, grandes empresas fabricantes de bolas instalaram unidades na área. Hoje, 40 milhões desses artigos, número que aumenta até 50% em ano de Copa do Mundo, são confeccionados por ali, o que representa 70% da produção mundial de bolas feitas manualmente.

Cada trabalhador recebe entre 55 e 63 rupias paquistanesas, que, convertidas, valem US$ 0,65 (R$ 1,17) e US$ 0,75 (R$ 1,35) por bola costurada. Shaukat conta que, em um bom dia de trabalho, com jornada de oito horas, consegue concluir até seis bolas. Nesse ritmo, leva para casa pouco mais de R$ 2.400 por ano, o que representa R$ 205/mês, quase o dobro da renda média do país. É com esse dinheiro que sustenta uma família de seis pessoas. "Não é muito dinheiro", lamenta o garoto. A seu lado, o patrão retruca. "Mas não é pouco também."

Apesar da discreta reclamação, o que se percebe no ambiente é o orgulho das pessoas, satisfeitas com a prosperidade da cidade. Além de bolas, a região se notabiliza na produção de instrumentos cirúrgicos, produtos de couro e instrumentos musicais. O segredo é entender e se adaptar ao padrão de qualidade do ocidente e criar infraestrutura que facilite a produção e o escoamento dos materiais. Não é por acaso que desde os meados dos anos 80, Sialkot tem alfândega própria. No ano passado, foi inaugurado um moderno aeroporto, o que facilitou as viagens dos executivos europeus e o transporte de materiais.

A região é apenas o primeiro estágio na linha de produção. E os níveis mostram a forma como cresce o valor agregado. Uma bola com preço de custo de R$ 1,35 pode ser encontrada em grandes lojas de departamento em qualquer capital europeia por até R$ 260.

O início. De acordo com a história na cidade, a tradição da região na produção de bolas de futebol começou um século atrás, quando Syed Sahib fazia reparos manuais nas bolas utilizadas por oficiais britânicos. Ao perceber a alta demanda, o paquistanês tratou de produzir suas próprias bolas. Hoje, Sahib é homenageado com uma rua que traz seu nome.

As empresas paquistanesas conquistaram o respeito do mercado. Primeiro, pela qualidade de seus trabalhadores. A costura manual propicia qualidade superior no arremate dos produtos. Segundo, porque conseguiram impedir o trabalho infantil, problema que compromete a imagem das corporações paquistanesas no Ocidente.

Robôs. No entanto, a louvável saída das crianças do mercado de trabalho trouxe consequência que preocupa os trabalhadores. "Atualmente estamos construindo uma fábrica onde os gomos das bolas serão costurados por máquinas", afirmou o presidente da Câmara de Comércio de Sialkot, Muhammad Ishaq Butt. O futebol, como se vê, interfere cada vez mais no dia a dia local. Porém, a partida exibida no velho aparelho de tevê, localizado no fundo da fábrica, não desperta a atenção dos trabalhadores./TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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