Londres proíbe a visita de ditadores

O governo inglês tem às vezes dificuldades com o COI para justificar medidas avessas à origem do movimento olímpico

SÍLVIO BARSETTI , ENVIADO ESPECIAL / LONDRES, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2012 | 03h07

A Olimpíada na Inglaterra vai começar daqui a alguns dias em ambiente conturbado politicamente, com trabalho redobrado para os diplomatas do país anfitrião. Há vários aspectos em jogo e o governo inglês tem às vezes dificuldades de cooptar um aliado de peso, o Comitê Olímpico Internacional (COI), para tentar ajudá-lo a justificar algumas medidas que podem soar como avessas à origem do movimento olímpico, embora respaldadas por grupos de defesa dos direitos humanos.

A Inglaterra decidiu já faz dias que o presidente da Síria, Bashar Assad, não vai pôr os pés no país para assistir aos Jogos deste ano. Nem ele nem outros ditadores, como Robert Mugabe, do Zimbabue, e Alexander Lukasheno, da Bielorrússia.

Esses países, porém, têm atletas inscritos na olimpíada, cuja participação até ontem ainda era uma incógnita. Cada país com representação no COI dispõe de seu comitê olímpico nacional, que deve seguir a Carta Olímpica, e não se deixar influenciar por decisões políticas locais.

Na Síria, em constantes choques entre governo e oposição, o presidente do Comitê Olímpico, o militar Mowaffak Joma, saiu em defesa de Assad e acabou punido pelo COI: teve sua credencial bloqueada e também não vai ver os Jogos de Londres.

Há exemplos, porém, em que os rumos do esporte e da política não tem necessariamente de convergir. Nos últimos três meses, o governo de Israel intensificou manifestações públicas a favor de que os Jogos de Londres fizessem uma homenagem aos 11 israelenses mortos em atentado durante a Olimpíada de 1972, em Munique. Políticos influentes da Inglaterra e de outros países da Europa reforçaram a campanha e o COI não hesitou em definir: nada será feito, nem sequer um minuto de silêncio para lembrar as vítimas.

A decisão seguiu recomendação da Comissão de Relações Internacionais da entidade, que se reuniu algumas vezes e apresentou seu parecer ao presidente do COI, Jacques Rogge. Concluiu que os atingidos naquela ação terrorista, praticada por radicais palestinos, já foram reverenciados pelo COI em várias outras ocasiões. Para não deixar uma imagem de intransigência, Rogge disse, no entanto, que será solidário a manifestações organizadas pelo Comitê Olímpico de Israel. Ele falou sobre isso rapidamente na noite de domingo, durante entrevista coletiva, no Parque Olímpico.

A Inglaterra também se vê no centro de outra polêmica, que envolve a Argentina e evidentemente a soberania das Ilhas Falklands (ou Malvinas). A presidente do país sul-americano Cristina Kirchner vai à cerimônia de abertura e há o temor de que ela reivindique na terra da rainha Elizabeth 2.ª o território que foi cenário de guerra entre os dois países em 1982. Para o COI, os ingleses já disseram que não vão tolerar provocações dos argentinos. Rogge conta com uma iniciativa da própria Kirchner, que fez um pedido aos atletas para que evitem o tema nos Jogos. Resta saber se a atitude da presidente foi apenas protocolar.

Se a "ordem" dela for desrespeitada e partir de um medalhista, certamente o atleta vai perder a honraria. Toda essa celeuma se agravou em maio, quando TVs argentinas exibiram um vídeo gravado nas ruas de Stanley, capital das ilhas, nas quais o capitão da seleção de hóquei do país, Fernando Zylbelberg, corria e fazia exercícios. A peça terminava com a frase: "Para competir em solo inglês, treinamos em solo argentino".

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