Brendan McDermid/Reuters
Brendan McDermid/Reuters

Lugar assombrado que ginastas que foram abusadas não deviam revisitar

Centro de treinamento da equipe americana fica em fazenda afastada do Texas; lá, Larry Nassar cometeu os crimes

Juliet Macur, THE NEW YORK TIMES

06 de fevereiro de 2018 | 07h00

O centro nacional de treinamento da equipe feminina de ginastas dos Estados Unidos é um lugar de difícil acesso. Fica a cerca de 100 quilômetros de Houston, dentro da Floresta Nacional Sam Houston, numa propriedade de 800 hectares de Bela e Martha Karolyi, a dupla de técnicos que desertou da Romênia e se tornou força propulsora da ginástica dos EUA. Na acidentada estrada para a fazenda, em 2008, um javali selvagem passou bem na minha frente. Ao chegar, fui recebida por um pavão. Bela me disse que estava feliz por não ter vizinhos. 

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O lugar é tão remoto que o site da USA Gymnastics informa que a recepção de celulares “é meio ruim”. Famílias de atletas não podem circular por ali. Visitas, só com permissão.

A equipe nacional feminina de ginástica deixa os ginásios de suas cidades para ser reunir uma vez por mês nesse centro de treinamento do Texas, onde fica desconectada e focada somente em seu esporte. O sistema ajudou a fazer dos americanos uma força quase imbatível na última década. 

Mas, com todas as medalhas que saíram da fazenda dos Karolys, ela não pode mais ser o centro nacional de treinamento. O lugar tornou-se assombrado. Lawrence G. Nassar, ex-médico da equipe, foi condenado por molestar ginastas ali (bem como em sua casa e em outros lugares). 

Simone Biles, uma das mais condecoradas ginastas da história e estrela dos Jogos Olímpicos do Rio, diz que tem medo de treinar na fazenda. “Fico deprimida em pensar que, para realizar meu sonho de competir em Tóquio em 2020, terei de voltar ao mesmo centro de treinamento no qual fui molestada”, disse no Twitter e no Instagram.

Roy Lubit, psiquiatra de Nova York especializado em traumas emocionais de crianças que sofreram abuso, disse que os comentários de Biles deveriam ser levados a sério. “É uma péssima ideia mandar essas garotas de volta àquele centro de treinamento”, afirmou, explicando que retornar a um lugar em que se sofreu abuso tende a acionar um poderoso gatilho de memórias traumáticas. 

A USA Gymnastics, que enfrenta vários processos relacionados a abuso sexual, respondeu às revelações de Biles informando que continuará “ouvindo nossas atletas” e tentará criar para elas uma “cultura de empoderamento”. Até agora, a federação não desistiu da propriedade dos Karolyis.

Há não muito tempo, a USA Gymnastics pretendia adquirir a propriedade. Então, os crimes de Nassar vieram a público. Uma ginasta após outra falou abertamente, relatando o trauma e o horror de ser submetida aos “tratamentos intravaginais” de Nassar, que ele descreveu como procedimentos médicos legítimos.

Em meados do ano passado, a federação anunciou ter desistido da intenção de comprar a fazenda. Citou “gastos financeiros inesperados associados à aquisição” como uma das razões pelas quais o negócio não vingou. A USA Gymnastics tem procurado novo local de treinamento. Procura, procura, procura... Mesmo uma solução temporária resolveria. A inação contraria a promessa de “ouvir nossas atletas”. 

“Um dos principais incentivos para a cura é que os que sofreram abuso se sintam no controle e tenham escolhas”, disse o psiquiatra Lubit. “Mas o que o comitê de ginástica está dizendo é que ‘não estamos providenciando acomodações para deixar vocês confortáveis’. É um outro tipo de situação abusiva.”

Quando a USA Gymnastics recebeu os relatórios originais sobre os abusos, os funcionários não os levaram suficientemente a sério. A federação demorou cinco semanas numa investigação interna antes de contatar as autoridades. Neste ponto, restam poucos meios para que a organização faça ajustes sem que advogados ditem os termos. Mudar o local do centro de treinamento pode ser uma rara oportunidade, se não de acertar as contas com o passado, pelo menos de cumprir as promessas referentes ao futuro.

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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