Lugar de menino briguento é na academia

A idéia de ver garotos de 13 e 14 anos, faixa etária da categoria infantil, lutando boxe, assusta leigos. Outros esportes praticados por crianças, como kart, caratê e judô, não provocam tantas discussões. Os dirigentes do boxe acreditam que a luta entre crianças cause polêmica porque as pessoas não sabem como é o regulamento ? o boxe infantil não é o mesmo dos profissionais e nem o das competições amadoras, que o público conhece. E tem atraído adeptos em São Paulo. O Torneio Infantil da Federação Paulista reúne 56 garotos de 15 academias, entre elas a Coliseu, mantida em parceria com o São Paulo Futebol Clube e a Prefeitura de Guarulhos, que trabalha com cerca de 25 meninos. O programa de lutas desta quinta-feira, pelas semifinais da competição, começa às 19h25, no Baby Barioni, na Água Branca, São Paulo. A final será terça-feira. Reinaldo da Silva, de 28 anos, professor da Coliseu, observa que a regra impõe um bom controle ao esporte. O regulamento da Confederação Brasileira de Boxe é restritivo para os 12 pesos da categoria infantil. As luvas são maiores, de 12 onças (341 gramas), os meninos usam capacete protetor, lutam no máximo três roundes, de 1min30, e duas contagens no mesmo assalto encerram o combate. ?Tenho um filho de 5 anos, que se tivesse 13 já estaria competindo?, afirma Reinaldo. O técnico diz que, em Cuba, os garotos competem a partir dos 10 anos. Na adolescência, já têm um cartel de 130 lutas. O boxe infantil é praticado nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. ?Mas na América do Sul este é o único campeonato?, afirma o presidente da Federação Paulista, Newton Campos. Reinaldo acha que o ?ruim para o esporte olímpico do Brasil? é que as competições não têm seqüência nas categorias subseqüentes, cadete e juvenil. O trabalho voluntário que desenvolve em Santa Isabel reúne 40 garotos e ainda há candidatos que não podem ser aceitos por falta de estrutura. Uma Kombi emprestada pela prefeitura transporta os meninos e a ajuda para o lanche vem da boa vontade de comerciantes ? às sextas-feiras, o técnico percorre 20 lojas, recolhendo R$ 4,00 em cada uma. Reinaldo comprou um par de luvas novas (R$ 115,00) para sortear entre os campeões da Coliseu no Torneio Infantil. O professor Jaime Sodré de França, também da Coliseu, afirma que o boxe infantil é seguro. ?Se o menino toma um golpe, além da proteção, o juiz abre contagem. É preciso começar cedo. Hoje, lá fora, nossos garotos de 17 anos seriam massacrados pela falta de experiência.? Newton Campos exibe o regulamento de 26 itens, alertando para a autorização do Comitê Olímpico Brasileiro. O dirigente mostra também o rosto de Edinaldo dos Santos, do CT Mogi Boxe, de Mogi das Cruzes, que venceu Thiago Moreira Santos, da Coliseu, por pontos, na primeira luta de terça-feira, e desafia: ?Viram como não tem marcas?? A história de Edinaldo é a mesma de muitos dos meninos que optam pelo boxe. Brigava na rua e na escola. ?Minha irmã, Azinete, cansada de ser chamada na secretaria da escola, procurou o CT.? Edinaldo, de 13 anos, fez sua luta de estréia no torneio. Treina duas horas por dia, três vezes por semana, e é fã de Acelino ?Popó? Freitas. Douglas Damião Ataíde, de 13 anos, da Coliseu, que venceu Jaime Machado, da Frontal-Itatiba, por nocaute técnico (paralisação da luta), foi levado à academia por um amigo da rua do bairro onde mora, o Jardim Taboão. ?Era briguento.? Ficou fascinado quando entrou na academia. Treina três vezes por semana, é fã de Anderson Pantera. Não tem medo de briga, mas disse que aprendeu a não brigar na rua. ?Eles ensinam disciplina.? Edmar Hudson Pires, da Coliseu, venceu por pontos Wanderson Galvão, da Osan-Rock Marciano. Aos 14 anos, luta há três ? seu cunhado é o professor Reinaldo. ?Desde pequeno eu brinco de boxe.? Tem 16 lutas, com 13 vitórias e 3 derrotas, e já domina o jargão do boxe. ?Sou de toques e não de trocar pau. Boxe é inteligência, não mão dura.? Morador de Santa Isabel, parou de treinar por um tempo por não ter os R$ 3,35 da passagem para ir a Guarulhos. Agora, ganha passe da academia. É fã do norte-americano George Foreman e do brasileiro Popó.

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