Lula incentiva, e governo cria a diplomacia da bola

A popularidade do futebol brasileiro será utilizada pelo Itamaraty no trabalho de política externa

Denise Chrispim Marin, O Estadao de S.Paulo

26 de abril de 2008 | 00h00

Com incentivo direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, torcedor do Corinthians e peladeiro de fim de semana, o chanceler Celso Amorim criou a Coordenação-geral de Intercâmbio e Cooperação Esportiva (CCE), um instrumento para o Itamaraty exercitar a "diplomacia da bola" e explorar o esporte na política externa. Como tudo no Itamaraty, o novo setor, implantado no início do ano, ganhou imediatamente um apelido e passou a ser chamado de "CG Bola". Sob o comando da ministra Vera Cíntia Alvarez, o CG Bola costura ações de cooperação que antes não passavam de apelos sem resposta de países africanos e sul-americanos. A expectativa é de que as iniciativas brasileiras provoquem, no mínimo, simpatia e retribuição a posições e campanhas do Brasil no plano internacional. Entre as mais imediatas está a candidatura do Rio a sede da Olimpíada de 2016 - o anúncio do vencedor será em outubro de 2009. O Rio concorre com Tóquio (Japão), Doha (Catar), Madri (Espanha), Chicago (Estados Unidos) e Baku (Azerbaijão). "Em suas viagens à África e à América Latina, o primeiro pedido que o presidente Lula recebia era de cooperação na área de esportes", contou Vera Cíntia. "O Brasil é um centro de referência, especialmente no futebol e em experiências de inclusão social por meio do esporte."ESCOLA DE FUTEBOL No dia 17 de março, em parceria com o Ministério dos Esportes e da Universidade de Brasília (UnB), o Itamaraty abriu a Escola Internacional de Futebol com o curso de formação para 40 técnicos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). A próxima turma acolherá técnicos de países de língua inglesa, como o Zimbábue e Botsuana. A escola deverá treinar também árbitros e oferecer cursos para outros esportes - o vôlei é o segundo alvo dos 63 pedidos de cooperação que ainda não foram atendidos. A cooperação, entretanto, não se resume ao ensino. Segundo Vera Cíntia, vários países pediram ajuda para adotar programas sociais do Ministério dos Esportes - como o Segundo Tempo, que permite reter estudantes nas escolas públicas, depois das aulas, por meio de atividades esportivas, e o Pintando a Liberdade, que prevê a redução de um dia de pena dos detentos que trabalharem três dias na fabricação de materiais esportivos. Trezentas bolas de futebol feitas por detentos serão levadas na bagagem do embaixador do Brasil no Timor Leste, Edson Monteiro, para doação. A CG Bola também sai em socorro a países africanos que esperam contratar profissionais do futebol no Brasil. Um dos casos recentes envolveu Valinhos, ex-técnico da seleção sub-20, que vai comandar o time do Zimbábue. Outro pedido recorrente é o de ser sede de um jogo da seleção brasileira. O presidente de Botsuana, Ian Khama, pediu uma partida com o Brasil para a festa de sua posse, no dia 1º de abril. A CG Bola contornou a dificuldade de furar o caríssimo calendário de amistosos do time de Dunga e ofereceu a seleção de Brasília, que foi entusiasticamente aceita. Otime do técnico Reinaldo Gueldini venceu por 1 a 0 a fraca seleção de Botsuana. Ao saber do evento, Moçambique também quis uma partida contra Brasília - outra vitória, em Maputo, dessa vez por 3 a 0. A diplomacia da bola já foi usada pelo governo Lula. Em agosto de 2004, o presidente escoltou a seleção brasileira em jogo no Haiti, onde o Exército Brasileiro comanda a missão de paz das Nações Unidas (ONU).

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