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Luta livre: as brasileiras vão à luta

A comparação é inevitável. Qualquer uma delas poderia ter inspirado Clint Eastwood a fazer uma versão brasileira do filme Menina de Ouro, ganhador de quatro Oscars este ano. Como Maggie Fitzgerald, a boxeadora do filme, são jovens humildes, que praticam um esporte em que as mulheres são novidade, e lutam para sobreviver ao mesmo tempo em que perseguem o sucesso. Aqui, no entanto, o esporte é a luta livre e o objetivo principal, mais que a independência financeira, o sonho olímpico.Fernanda Peres, de 26 anos, é tricampeã brasileira na categoria até 48 kg e apontada como um dos grandes talentos do Brasil. Como está desempregada e não consegue sobreviver do esporte, garante o sustento estampando e vendendo camisetas. Os passes de ônibus fornecidos pelo Centro Olímpico do Ibirapuera permitem que siga treinando. A sapatilha de treino está furada. Um par novo custa R$ 200, dinheiro que não tem.Fernanda admite que já enfrentou momentos de desânimo em busca de patrocínio. "Eles (os empresários) tratam os atletas com desprezo, como se a gente fosse vagabundo." A única coisa que a estimula a treinar quatro horas por dia é seu objetivo. "Quero disputar uma Olimpíada." Fora do Brasil, seu esforço foi reconhecido. Em abril, vai passar 15 dias treinando com a seleção americana em Colorado Springs (EUA). "Vou pelo programa Solidariedade Olímpica do Comitê Olímpico Internacional."Ex-judoca, Aline da Silva, de 18 anos, que viajará com Fernanda para os EUA, viu pela TV a chinesa Xu Wang ganhar o ouro olímpico na categoria até 72 kg. "Lutei com ela há dois anos, no Madison Square Garden, e perdi. Era cadete, mas disputei o Mundial Senior e lutei de igual para igual. Ela não conseguiu me vencer por superioridade técnica (o equivalente ao nocaute na luta livre)", lembra, com orgulho. "Acho que também posso chegar bem a uma olimpíada, agora que tenho mais experiência. Só preciso ter condições de treinar, comer - os suplementos alimentares são caros - e contar com intercâmbio."No ano passado, para ajudar a família, Aline trabalhava em um banco, em uma loja de shopping e treinava à noite. "Mesmo assim, consegui ser campeã brasileira." Hoje, desempregada, conta com a ajuda da mãe, que reforça o orçamento com horas extras no trabalho. Aline quer um emprego que não a impeça de treinar e competir. "Passo fome, mas não abro mão do meu sonho."Rosângela da Silva Conceição tem 31 anos e já integrou a equipe brasileira de judô. Hoje, estuda educação física. Para garantir a renda mensal, é personal trainer, além de vender bolsas e lingerie. Fora isso, conta apenas com a ajuda de custo da Prefeitura de São Bernardo do Campo. "Meu sonho não é apenas ir a uma Olimpíada, mas conquistar medalha."Com a experiência de competir em alto nível, Rosângela acredita que às brasileiras só faltam condições de preparação. "O maior problema é que não sabemos como treina o pessoal lá fora - faltam parâmetros. Talvez, se trouxessem um técnico de fora, um cubano, por exemplo... Seria bom."Por acaso - Camila Tristão, de 16 anos, começou na luta livre de forma inusitada. "Fazia jazz e meus pais ficaram sem condições de pagar. Aí, umas amigas me convidaram para treinar luta no Centro Olímpico, que dava dinheiro para a condução. Topei para não ficar parada", conta. "No começo, fazia por fazer, mas passei a adorar e agora meu objetivo é a Olimpíada", diz Camila, também apoiada por São Bernardo. Para realizar o sonho, até parou de dar aulas de inglês. Com pouco dinheiro, aproveita nos treinos as antigas sapatilhas de jazz.Michele Thompson, de 23 anos, foi atraída para a luta livre pelo tratamento dado aos atletas, o que quase a fez desistir do curso de veterinária. "No jiu-jítsu, os atletas são muito maltratados. As competições são caras, as medalhas, ridículas", lamenta. "Na luta, os atletas são respeitados. A grana da Confederação Brasileira é pouca, mas, quando a gente viaja, tem transporte, alimentação e estadia. Para mim, é um luxo." Outro estímulo foi a possibilidade de ser apoiada financeiramente, no caso, por São José dos Campos, que defende nas competições.Nádia Ramos, de 24 anos, foi responsável pela conquista de uma das vagas da luta livre brasileira para o Pan-Americano de São Domingos, em 2003. Não foi à República Dominicana por causa de duas contusões - uma no joelho, que sofreu na final da seletiva, e outra no ombro, às vésperas do Pan. Não tinha dinheiro para o tratamento, mas contou com a ajuda do médico Mauro Martinelli, que cuidou dela de graça. Hoje, Nádia treina pensando no Pan de 2007 e na Olimpíada de 2008 e luta por um futuro melhor cursando educação física, graças a uma bolsa-atleta da Faculdade Santana.

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