Macunaíma alvinegro

O futebol moderno abriu espaço para a ciência, o marketing, a publicidade e outras bossas. Mas conserva aspectos antigos, que resistem a modismos ou evolução. Um deles é a presença da figura clássica do provocador. Quem é? Jogador ranheta, chato, que enchouriça adversários. Em geral é baixinho, abusado nos dribles e tira onda dos marcadores. Chama faltas, cava pênaltis e expulsões. Está em todo canto e com frequência decide. Apanha que só. É amado pelos companheiros e fãs; odiado pelos rivais.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2012 | 03h02

Jorge Henrique faz tudo isso e mais um pouco no Corinthians. Os alvinegros estão acostumados desde 2009 a vê-lo acelerar jogadas, frear bruscamente, prender a bola, tirar um zagueiro para dançar - e levar bordoadas. Muitas vezes, dadas com gosto por quem se sentiu ultrajado por suas diabruras. Raramente, porém, se machuca, apesar de encenações exageradas. Um canastrão resistente de 1m69 de altura.

Jorge Henrique expôs o repertório de malandragem de boleiro à antiga no clássico de ontem com o São Paulo. Com um detalhe: foi destaque da equipe, ao desarmar, armar, cobrar o escanteio que se transformou no gol decisivo de Danilo e ao abrir espaços. De quebra, provocou o cartão vermelho para João Filipe, aos 14 minutos da etapa final.

O episódio ocorreu de uma forma que lhe é peculiar: rebolou, quase no meio-campo, perto da lateral, e levou safanão de levantá-lo quase um metro. Esperneou, clamou por atendimento médico, saiu na maca móvel com sorriso maroto para voltar em seguida, lépido e faceiro.

Apelar para a ignorância foi o recurso final de João Filipe, o mais massacrado jogador tricolor desde a primeira assoprada de apito de Raphael Claus. O técnico Emerson Leão o deslocou para a direita, na falta de um especialista, e em seu setor o Corinthians fez a festa. Por lá, a todo instante, desceram Fábio Santos, Danilo e o tinhoso Jorge Henrique. Um estrago. Para João Filipe sobraram correria, dribles e, ainda por cima, broncas de seus colegas, em vez de ajuda.

Leão só se deu conta da entortada no time quando João Filipe foi expulso. Um minuto antes, o treinador tricolor havia feito mudanças em penca, com a entrada de Fernandinho, Maicon e Osvaldo, no lugar de Jadson, Casemiro e Willian José. A saída foi colocar Wellington na direita - e problema na defesa resolvido à custa do sacrifício de uma peça.

O jogo foi bom, o melhor do Paulista até agora, mesmo com o gramado encharcado e com torós a ensoparem todo mundo que foi ao Pacaembu. O Corinthians esteve melhor no primeiro tempo, fez o gol e não tomou o empate, antes do intervalo, porque Ralf salvou de cabeça uma bola em cima da linha e pelo pênalti que Jadson cobrou e mandou no tobogã. O São Paulo, por ironia, se ajustou ao ficar com 10. Na prática, com nove, pois Lucas esteve mais sumido que táxi em dia de chuva.

O São Paulo continua com a sensação recente e incômoda de freguesia. Não consegue superar o complexo de inferioridade diante do seu maior algoz na atualidade. Algo para divã.

O Corinthians embarca feliz para a Venezuela, onde na quarta-feira estreia na Libertadores. E leva na bagagem a picardia e a inquietação de Jorge Henrique, esse Macunaíma alvinegro, a reencarnação no futebol de hoje do "herói sem nenhum caráter" criado por Mário de Andrade. E não é que a lembrança vem a calhar, já que estamos em época de comemorar os 90 anos da Semana de Arte Moderna realizada na Pauliceia? Vá lá, fica o atrevimento da comparação; Jorge Henrique bem a merece.

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