Giuseppe Cacace / AFP
Giuseppe Cacace / AFP

Magnus Carlsen S/A: ser campeão mundial de xadrez é um grande negócio

Vencer fez do norueguês um nome conhecido. Mas ensinar e vender o jogo a outras pessoas o deixou rico

Dylan Loeb McClain, The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2021 | 15h00

Aos 16 anos, Magnus Carlsen, um grande mestre do xadrez norueguês, tinha sucesso suficiente para que seus pais, Henrik e Sigrun, decidissem criar uma pequena empresa para lidar com seus ganhos. Henrik disse na época que esperava que aos 25 anos Magnus já houvesse ganhado o bastante para que, se decidisse parar de jogar, tivesse pelo menos alguma independência financeira. Magnus excedeu bastante essa meta relativamente modesta.

Carlsen, o atual campeão mundial, fará 31 anos no final do mês, poucos dias depois de abrir sua defesa do título, na última quarta-feira, em Dubai, partida da série de melhor de 14 jogos contra Ian Nepomniachtchi, um grande mestre russo. O prêmio total do evento é de US$ 2 milhões. Até 60% irão para o vencedor.

Mesmo assim, ganhe ou perca, o pagamento só aumentará os milhões de dólares que Carlsen ganhou até aqui na carreira. Ele também fez algo que nenhum de seus contemporâneos ou predecessores, nem mesmo Garry Kasparov, que deteve o título mundial de 1985 a 2000, conseguiu fazer: ele alavancou sua fama para se tornar um dos principais empresários do xadrez mundial. No processo, acumulou uma pequena fortuna.

Carlsen tem vários acordos de patrocínio privado, entre eles Unibet, um site de apostas esportivas; Isklar, uma empresa norueguesa de água; e Simonsen Vogt Wiig, um escritório de advocacia norueguês. Mas o principal veículo de seus empreendimentos é a Play Magnus, empresa que ele cofundou em 2013, ano em que se tornou campeão mundial.

Inicialmente projetada como um aplicativo que permitia aos usuários imitar o estilo de jogo e a força de Carlsen em diferentes idades, a Play Magnus se expandiu, principalmente por meio de aquisições, e virou uma empresa com uma dúzia de subsidiárias. Agora abarca um site de jogos online, várias plataformas de ensino e treinamento e departamentos de livros e publicações digitais.

De acordo com Andreas Thome, executivo-chefe da Play Magnus, a empresa tem cerca de 250 funcionários e 4 milhões de usuários registrados em seus produtos e programas de aprendizagem. Um ano depois de abrir capital na bolsa de valores Euronext Growth Oslo, a Play Magnus agora tem uma capitalização de mercado de cerca de US $ 115 milhões. É a única empresa de xadrez de capital aberto do mundo.

Magnus Chess, a entidade privada criada quando Carlsen tinha 16 anos para lidar com seus ganhos, possui 9% da Play Magnus, o que faz dela a segunda maior acionista. A Magnus Chess, por sua vez, é 85% propriedade de Carlsen. Isso faz com que sua parte pessoal na Play Magnus valha quase US $ 9 milhões.

Embora Carlsen não desempenhe nenhum papel nas operações do dia-a-dia da empresa que leva seu nome, ele exerce uma influência descomunal em sua estratégia. Seu pai faz parte do conselho de diretores e Magnus Carlsen é consultado sobre as principais decisões.

“Temos uma comunicação muito boa com a administração da empresa”, disse Henrik Carlsen. “Estamos em contato direto. Eles realmente querem ouvir Magnus em todas as decisões importantes. É um tipo de simbiose”. Thome concordou. “O que é importante para Magnus é deixar o jogo mais acessível para mais fãs ao redor do mundo”, disse ele. “As ideias que ele defende são definitivamente a espinha dorsal daquilo em que a empresa acredita.

As ideias de Carlsen há muito influenciam a estratégia de aquisição da empresa. “Ele queria muito uma zona de jogo quando tínhamos só os aplicativos”, disse Henrik Carlsen. Então, em março de 2019, Magnus impulsionou a fusão com o Chess24, um dos principais sites de jogo na internet.

No ano passado, com a pandemia impedindo todos os torneios presenciais e também adiando o campeonato mundial, a empresa decidiu criar suas próprias competições. Mais uma vez, disse Thome, Carlsen foi chamado para aconselhar. “Trabalhamos bastante com Magnus nessa ideia”, disse Thome. “Qual poderia ser o conceito mais interessante para envolver mais fãs de todo o mundo? Qual deveria ser o formato?”.

A Play Magnus organizou uma série de dez torneios online, com US $ 1,6 milhões em prêmios. Os eventos apresentaram 44 dos melhores jogadores do mundo, incluindo Carlsen.

A participação de grandes jogadores, até mesmo do campeão mundial, permitiu que o evento atraísse patrocinadores. Entre os que se inscreveram estavam a Meltwater, uma empresa de inteligência de mídia, que deu o nome ao campeonato; a FTX, uma bolsa de criptomoedas; e a Mastercard. Julius Baer, um banco suíço de gestão de fortunas, tornou-se o principal patrocinador de um segundo campeonato, o Challers, para jogadores promissores.

A final do Meltwater Tour foi no mês passado, realizada em um estúdio de esportes construído pela Play Magnus em Oslo. Sem surpresa, Carlsen venceu. Ele também arrecadou a maior parte dos prêmios da temporada - pouco mais de US $ 315.000. O americano Wesley So terminou em segundo lugar e embolsou US $ 215.000.

O resultado fez com que a competição criada e administrada pela empresa de Carlsen fosse financeiramente lucrativa para a Carlsen, um desfecho que Thome insistiu que não era problemático. “O fato de Magnus estar apoiando fortemente o evento, jogando no evento, levando a sério, competindo, é uma maneira de garantir que outros jogadores importantes estejam jogando lá e é muito valioso para a empresa”, disse ele. Tudo isso, argumentou ele, era bom tanto para a empresa quanto para seus acionistas.

Em seu relatório de acionistas do terceiro trimestre, a Play Magnus informou que o evento teve 115 milhões de visualizações da transmissão ao vivo e 29 milhões de horas de vídeo assistidas - colocando-a no rumo certo, disse Thome, para se equilibrar financeiramente. No entanto, a empresa relatou prejuízo de US $ 5,3 milhões no terceiro trimestre, elevando o prejuízo de 2021 para mais de US $ 14 milhões. Com reservas de caixa de quase US $ 22 milhões, essas perdas parecem sustentáveis, por enquanto.

A Play Magnus já anunciou que realizará mais uma competição entre campeões, com nove torneios, a partir de fevereiro. A empresa também está criando um tour regional na Índia. “Com o tempo”, disse Thome, “gostaríamos que nosso Champions Chess Tour fosse para o xadrez o que o P.G.A. é para o golfe ou o que a Fórmula Um é para as corridas”.

Henrik Carlsen, que sempre esteve presente ao lado do filho durante sua carreira - parte confidente, parte equipe de apoio - reconheceu que ser o rosto da Play Magnus impôs mais pressão sobre Magnus. Mas disse que ele sempre conseguiu compartimentar seus interesses comerciais e competitivos. “É absurdo pensar nas consequências comerciais quando ele joga um torneio ou mesmo um campeonato mundial”, disse Henrik Carlsen.

Seu filho é o favorito para defender o campeonato mundial contra Nepomniachtchi: tem uma classificação mais elevada do que seu adversário e muito mais experiência de jogo. Mas, mesmo se ele perder, o resultado não deve ter efeito material nas perspectivas financeiras de seus interesses comerciais.

“O grupo de empresas Play Magnus é altamente diversificado em termos de nossos fluxos de receita”, disse Thome. “Alguns desses fluxos são mais relacionados a Magnus do que outros, então é melhor que ele seja campeão mundial. Mas acho que Magnus alcançou um status no mundo do xadrez devido ao seu desempenho ao longo de muito tempo, o que significa que ele será uma lenda do jogo para sempre”.

Carlsen e sua família acreditam tanto na empresa que, quando o preço das ações caiu recentemente, eles começaram a comprar mais ações - cerca de 100 mil nos últimos seis meses, de acordo com Henrik Carlsen. Quanto ao objetivo de independência financeira que ele e sua esposa estabeleceram para Magnus quando o filho tinha 16 anos, Henrik Carlsen agora o despacha com um gesto largo. Magnus, disse ele, já ultrapassou a meta “de longe, de longe”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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