Maguila vira professor de boxe

Adílson "Maguila" Rodrigues anda rindo à toa. Não pára de falar que finalmente vai realizar o sonho que tinha para depois de encerrar a longa carreira como pugilista. Na próxima segunda-feira, inicia a vida de professor de boxe em um projeto que começa com crianças carentes de Osasco, na Grande São Paulo, mas que tem ambições de ser expandido para outras cidades."Eu não sou um cara que costuma sorrir. Agora, estou rindo o tempo inteiro. É tudo o que eu queria fazer na vida: ensinar o que eu aprendi no boxe para a molecada que está na rua", diz, empolgado com o plano de ensinar boxe para até 2 mil pessoas.De manhã e à tarde, o galpão no centro de Osasco servirá para aulas a garotos a partir de 14 anos. À noite, treinarão boxeadores amadores para uma equipe que vai representar a cidade em competições como os Jogos Abertos do Interior.A realização do projeto, em parceria com a Prefeitura de Osasco, é para Maguila o fim de uma frustração. Quando encerrou a carreira de lutador, disse que queria virar professor e teve duas chances. A primeira, quando foi convidado para ajudar na campanha de um candidato a prefeito em Itaquaquecetuba. "Ele me pediu ajuda e eu só queria que ele abrisse a escolinha se fosse eleito. Trabalhei, pedi votos, ele ganhou e depois me disse: ?Olha, perdi três eleições e finalmente ganhei uma. Vou cuidar de mim?. Eu fiquei com uma raiva..."Depois, Maguila participava de um projeto de uma equipe amadora da Prefeitura de São Paulo na Zona Leste, que acabou sendo cancelado. A raiva foi substituída pela ironia. "Eu estava ensinando boxe para um monte de moleques e a prefeita cortou. Então chamei todos e falei: ?Olha, vocês não estavam roubando nos faróis antes de lutar boxe? Então, agora voltem?. Devem estar lá roubando."Para ele, o esporte tornou-se ainda mais fundamental na tarefa de tirar os garotos do caminho da criminalidade. Como exemplo, cita sua própria história de vida. "Quando vim de Aracaju, com 14 anos, me convidaram para roubar e fumar maconha. Não aceitei. Hoje, os moleques vão fácil. Você anda na rua e já vê meninos de 10 anos com um cigarro na boca."A pedadogia de Maguila será simples. "O garoto será acompanhado também nos estudos. Se estiver com notas ruins na escola, vai tomar bronca. Todo mundo diz que o boxe é um esporte violento, mas na verdade educa e dá disciplina. Se eu ficar sabendo que um aluno brigou na rua, vou dar um puxão de orelha. E também não quero que alguém venha para cá para descontar a raiva que tem do mundo. Quero que aprendam a respeitar os mais velhos e a se alimentar bem", planeja.A empolgação de Maguila é tanta que ele não se contenta em descrever como vai ser professor. Puxa o primeiro rapaz que encontra pela frente, pede para colocar o pé esquerdo mais para a frente, proteger o rosto com o punho direito e iniciar uma seqüência de jabs com a esquerda, finalizando com a tentativa de um direto de direita. "É só isso. Depois precisa aprender a se movimentar no ringue, ter um trabalho de pés. O resto é por conta do meu olho biônico, que vai formar campeões."

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