Peter Powell/Reuters
Peter Powell/Reuters

Mais de mil atletas russos foram beneficiados por manipulação de testes de doping

Investigação revela "conspiração sem precedentes" e envolve até o governo russo

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2016 | 09h36

Mais de mil atletas russos foram beneficiados por manipulações no controle de doping entre 2011 e 2015, num esquema que envolveu uma "conspiração em uma escala sem precedentes" entre federações esportivas, agências antidoping e o próprio governo russo.  A investigação também revela que os resultados da Olimpíada de Londres de 2012 foram "corrompidos de forma sem precedentes".

As conclusões fazem parte do relatório final preparado pelo investigador Richard McLaren, a pedido da Agência Mundial Antidoping, apresentados nesta sexta-feira. 

"Esses atletas não agiam individualmente, mas dentro de uma estrutura organizada", disse McLaren, que chamou o sistema de "corrupto". "A manipulação de doping ocorreu desde 2011 e em uma conspiração em uma escala sem precedentes", disse.  

"Houve uma sistemática manipulação de controle de doping", insistiu McLaren. "Mais de mil atletas podem ser identificados como tendo beneficiados de manipulações", explicou. Nos esportes de verão, esse número seria de pelo menos 600 e os nomes já foram repassados às federações internacionais.

Mais de 500 casos que deveriam ser positivos foram testados como "negativos" nos exames internacionais, permitindo que pudessem competir em provas internacionais e mesmo nos Jogos Olímpicos de 2012. "Talvez nunca conheceremos a dimensão da corrupção dos resultados em Londres. Trata-se da maior fraude nos tempos modernos em um evento", completou.

Para ele, os resultados "impressionantes" dos russos em Londres "falam por si só". Os nomes dos envolvidos foram passados às federações de cada uma das modalidades. "Vamos tomar medidas", prometeu a Federação Internacional de Atletismo".

"Enquanto a manipulação dos testes ocorria, produtos ilegais eram fornecidos", explicou McLaren. "Em Londres, a Rússia venceu 24 medalhas de ouro e ninguém foi pego no doping", disse. 

Para o investigador, havia um "sistema disciplinado estabelecido para ganhar medalhas, principalmente nos Jogos de Sochi de 2014".  Um banco de amostras limpas de sangue foi transportado para a cidade e, dali, o material era fornecido para que os atletas não fossem pegos.

"Os eventos foram sequestrados pelos russos. Não há como saber por quanto tempo fizeram isso", alertou o investigador, que aponta também para manipulação nos Jogos Paralímpicos de 2012.  

Antes dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio, seu informe preliminar apontou como o consumo de substâncias proibidas por atletas russos era promovido por programas secretos do estado russo, contando inclusive com o apoio dos serviços de inteligência. 

As revelações levaram centenas de atletas e entidades a pedir a suspensão da delegação russa dos Jogos do Rio. Mas a opção do COI foi a de manter Moscou no evento e suspender apenas aqueles que não conseguissem provar que estavam limpos. Na época, McLaren acusou o COI de não entender que o doping era generalizado e organizado pelo estado russo. 

Agora, suas conclusões revelam a dimensão do escândalo que envolveu diretamente o ex-ministro do Esporte russo, Vitaly Mutko. O braço direito de Vladimir Putin não foi autorizado a viajar ao Rio de Janeiro. Mas o Kremlin, ao invés de o demitir, o promoveu para o cargo de vice-primeiro-ministro.

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