Manifestações no Brasil já causam preocupação ao COI

Onda de protestos contra gastos públicos com a Copa de 2014 faz Comitê Olímpico Internacional rever exigências sobre as próximas cidades-sede

JAMIL CHADE, O Estado de S. Paulo

04 de julho de 2013 | 08h02

GENEBRA - As manifestações no Brasil contra os gastos da Copa do Mundo de 2014 fizeram a cúpula do Comitê Olímpico Internacional (COI) repensar os critérios de escolha de sedes para as próximas edições dos Jogos Olímpicos, enquanto cartolas já falam abertamente da necessidade de rever os modelos de grandes eventos esportivos. O COI se reúne nesta semana em Lausanne e parte de sua cúpula está envolvida nas eleições para a nova presidência.

 

Ainda que os protestos no Brasil estejam direcionados contra a Fifa e os gastos públicos para levantar estádios para a Copa, o COI sabe que pode se transformar em alvo dessas manifestações bem antes de 2016, quando ocorre o evento no Rio de Janeiro. Por isso, decidiu que não vai esperar e considerou a reação nas ruas brasileiras como um sinal claro de que os grandes eventos esportivos estão passando por um "divisor de águas" em termos de sua popularidade.

 

"Teríamos que ser surdos se não escutássemos o que as pessoas nas ruas estão dizendo", declarou nesta semana um dos principais integrantes do COI, Richard Carrion, e um dos favoritos para vencer a eleição na entidade. "Temos de escutar o que estão dizendo quando votarmos pela próxima cidade sede", disse.

 

Em setembro, o COI escolherá a sede da Olimpíada de 2020. Duas das candidatas – Madri (Espanha) e Istambul (Turquia) – passam por momentos críticos, com protestos contra cortes de gastos e falta de democracia. A outra candidata é Tóquio (Japão). "Estamos vivendo uma era de grande pressão econômica", declarou Carrion à agência France Press.

 

Outros integrantes do COI, em busca de votos, já mudaram o tom da entidade e abandonaram as declarações de que cabe a um país gastar o que seja necessário para sediar os Jogos Olímpicos.

 

O Estado apurou que a ordem dentro do COI, depois do que se viu no Brasil, é de insistir que não se exigirá mais de uma cidade do que o mínimo para realizar as competições esportivas. Muitos já defendem que não se estabeleça um tamanho mínimo para os estádios, no esforço de acabar com as críticas sobre a construção de elefantes brancos. Na Fifa, o estádio que acolherá a final da Copa precisa ter entre 65 e 70 mil lugares de capacidade mínima.

 

Outra mudança de que se fala dentro do COI se refere às obras de infraestrutura que são exigidas das cidades. Muitos passaram a insistir em reuniões fechadas de que não cabe à entidade exigir construções de linhas de transporte que não tenham, depois, uma utilidade real para a população. Na Copa do Mundo de 2010, realizada na África do Sul, uma das principais críticas à organização foi direcionada ao fato de que as obras de infraestrutura por todo o país apenas se referiam a estradas e transporte ligando o centro das cidades aos estádios, e não aos bairros mais afastados, que necessitavam de transporte público.

 

O COI insiste em, a partir de agora, trabalhar duro para repassar ao mundo uma imagem bem diferente à da Fifa, que passou as últimas duas semanas justificando sua presença no Brasil e insistindo que não era alvo dos protestos. Joseph Blatter, presidente da Fifa, chegou a declarar que o futebol era "mais forte que a insatisfação popular". Já Jérôme Valcke, secretário-geral da entidade, apostou que "bastaria que o Brasil vencesse a Copa para as críticas desaparecerem". Não foi bem o que aconteceu e tudo serviu de lição ao COI.

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