Mano, o indeciso

Começo pelo fim: eu não fiquei surpreso com a queda de Mano Menezes - e considerei acertada a decisão de afastá-lo. Já faz um bom tempo que publiquei aqui um texto no qual relembrava uma conversa com Carlos Alberto Parreira, pouco antes da Copa de 2006. Naquela ocasião, o velho mestre andava preocupado com a missão quase impossível de administrar os egos de um time recheado de trabalhosas estrelas. A sensibilidade de Parreira não falhou e acabamos perdendo o Mundial, mesmo com uma constelação de craques. Mas o trecho mais marcante da conversa foi quando ele estabeleceu as claras diferenças que existem entre treinar um clube e a seleção brasileira.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h07

Num clube, explicou Parreira, o treinador precisa definir o estilo de jogo do time de acordo com as peças que possui. O orçamento dos clubes é limitado e não é possível ter o jogador ideal para cada posição. Na seleção, a história é outra. Num país rico futebolisticamente como o Brasil, é inadmissível um técnico se apresentar para treinar a seleção sem ter uma concepção de jogo. Se o "professor" gosta do esquema de três zagueiros, como Felipão, terá à disposição três ótimos defensores para montar o time do jeitinho que gosta. Se a preferência é por valorizar a posse de bola, num um tradicional 4-4-2, como Parreira adorava, certamente haverá bons talentos para ocupar as posições.

Insisto nisso: podemos falar à vontade de Dunga, mas o seu time tinha uma proposta tática. Fora de casa ou diante de adversários mais fortes, recuávamos e partíamos em contra-ataques velozes e mortais. Foi assim que batemos a Argentina várias vezes, ganhamos a Copa América, as Eliminatórias e a Copa das Confederações.

O erro de Dunga não foi tático, mas de gestão: insistiu em manter um grupo "fechado", com veteranos como Kléberson e esquentadinhos como Felipe Melo, sem saber oxigená-lo com novas peças que já despontavam nos gramados, como Ganso e Neymar. Mano jamais conseguiu nos dizer qual era a sua proposta tática. Vimos o Brasil muito ofensivo, excessivamente recuado, no 4-4-2, no 4-3-3, no 4-3-1-2, no 4-3-2-1... O técnico não definiu como o time pretendia atuar e, assim, os jogadores jamais se adaptaram aos papéis esperados. Mano nunca conseguiu estabelecer se íamos tocar mambo, maxixe ou samba. E, assim, tornou impossível que nossa orquestra se entrosasse.

O futebol pragmático do reinado de Dunga e a irregularidade do grupo de Mano lançaram sombras sobre a paixão do torcedor pela seleção. Espero que o novo treinador - seja ele o meu favorito, Guardiola, os carrancudos Felipão e Muricy, o professoral Tite ou ainda o bonachão Abel - possa entender a profundidade do maravilhoso desafio de comandar a grande paixão do nosso povo em uma Copa do Mundo no Brasil. A missão primordial do novo técnico será fazer o torcedor se reapaixonar pela camisa canarinho. E isso só poderá ser feito com uma concepção de jogo clara e estabelecida. E, por favor, que nosso time jogue com aquele atrevimento da estreia de Mano diante dos Estados Unidos, algo que infelizmente se perdeu no emaranhado de dúvidas táticas que marcou o breve reinado do simpático treinador.

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