Adriana Zehbrauskas/The New York Times
Adriana Zehbrauskas/The New York Times

Mantidos afastados por causa da pandemia, velocistas se entregam a corridas virtuais

Coronavírus faz corredores usarem a tecnologia para buscar formas de treinar, manter-se conectados com os colegas de equipe e competir entre si

Kellen Browning/New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2020 | 08h24

Em uma noite de sexta feira do fim de junho, três mulheres usando tênis de corrida azul e branco assumiram suas posições na largada no Parque Buffalo, em Flagstaff, Arizona, todas com a mão no relógio. Após uma contagem regressiva e o grito de “Valendo!”, elas saíram em disparada. Foi como qualquer outra corrida de cross country, mas a diferença é que o adversário era invisível: um trio de corredoras rivais disputava com elas a partir de um estado próximo enquanto milhares de fãs assistiam à prova na tela dividida de uma live do Instagram.

Ninguém esperava que as corridas virtuais fossem as disputas mais animadas para os corredores em meados de 2020. Mas, com a pandemia do coronavírus pandemic tornando inviáveis as aglomerações, os corredores estão se voltando para a tecnologia enquanto buscam formas de treinar, manter-se conectados com os colegas de equipe e competir entre si.

Alguns optaram pelo simples, registrando os treinos e planos de atividade física em planilhas e documentos compartilhados do Google para manter o contato com os técnicos. Outros corredores estão usando populares aplicativos sociais de malhação como MapMyRun e Strava, que chegaram ao recorde de 3,4 milhões de downloads em maio.

E alguns técnicos e organizadores de provas inovaram depois de serem obrigados a jogar no lixo os planos para prestigiadas provas de atletismo, grandes maratonas e a Olimpíada de Tóquio, adiada para meados de 2021. Estão tentando aproveitar um momento sem disputas em pessoa com a organização de corridas virtuais entre velocistas de diferentes estados - ou até continentes.

“Praticamente tudo foi cancelado e tivemos que reunir nossas forças para avaliar a situação, buscando empenhar nossa expectativa em modalidades não tradicionais", disse Ben Rosario, técnico da equipe profissional de corrida de longa distância Hoka Northern Arizona Elite.

Enquanto o Arizona passou pela quarentena, em abril e maio, os membros da pequena equipe de corredores profissionais comandada por Rosario em Flagstaff passaram mais de um mês sem treinarem juntos, e ele usou um registro de treinos online chamado FinalSurge para enviar planos de treino e manter o contato com os atletas.

Mas isso não substituiu a emoção da corrida. Assim, quando os velocistas da equipe puderam voltar a treinar juntos, Rosario bolou um plano.

Ele fez uma parceria com outra equipe profissional de Boulder, Colorado, para organizar uma prova contra o relógio. As duas equipes correriam um trecho de 3,2 km partindo exatamente ao mesmo tempo, para então comparar os resultados. E, para apimentar a prova, as duas equipes transmitiriam a corrida ao vivo no Instagram em uma tela dividida, para que os torcedores pudessem acompanhar de casa.

Quando chegou ao Parque Buffalo, um vasto gramado situado sobre um platô, Stephanie Bruce sentiu um nervosismo anterior à corrida como não vivenciava há meses.

“Senti as lendárias borboletas no estômago, uma sensação bem boa", disse Stephanie, corredora profissional da Hoka Northern Arizona. “É difícil encarar quando ficamos sem a oportunidade de correr. É como estar em uma jaula, com vontade de extravasar toda a energia dos treinos nos quais investimos tanto.”

Stephanie, a primeira mulher a completar o circuito na prova entre as duas equipes, disse que era difícil imaginar os adversários de Boulder enquanto corria pelo percurso. Mas os torcedores gostaram da disputa — mais de 15.000 pessoas assistiram aos vídeos depois que foram publicados no Instagram

Mesmo para atletas que não dependem do esporte como fonte de renda, correr com amigos e participar de provas era uma parte comum e constante da vida que foi arrancada deles, que agora buscam uma forma de retomar a conexão.

Muitos estão usando o aplicativo Strava, que permite aos corredores interagir entre si parabenizando os amigos por seus treinos. Também é possível comparar o desempenho em trechos específicos, além de participar de clubes e desafios.

“É como um Instagram para corredores", disse Kalea Chu, velocista que cursa o segundo ano na Universidade do Kansas. “Ajuda a acompanhar os treinos dos colegas, para que estejam todos no mesmo barco na hora de retomar os treinos.”

Diante da possibilidade de um terceiro trimestre sem corridas presenciais, os organizadores desses eventos também estão usando a tecnologia para motivar os velocistas. Em junho, a organização New York Road Runners, que celebra anualmente a Maratona de Nova York, cancelou o evento deste ano — criando uma alternativa online.

A NYRR viu uma alta no número de participantes de suas corridas virtuais em 2020. O grupo teve cerca de 22.000 atletas concluindo as duas corridas virtuais desse ano, uma alta em relação aos cerca de 15.000 vistos em 2019. A organização acrescentou também duas novas competições virtuais no segundo trimestre, e cada uma foi completada por mais de 10.000 participantes.

E, na quinta feira, pelo menos 30 atletas em sete pistas diferentes espalhadas em três continentes, incluindo atletas americanos de elite como Allyson Felix e Noah Lyles, competirão nos Inspiration Games, que devem incluir cinco provas virtuais de curta distância e três modalidades de atletismo. Allyson correrá sozinha em uma pista na Califórnia contra a presença virtual de duas adversárias correndo simultaneamente a milhares de quilômetros de distância, sincronizadas pela tecnologia via satélite.

Mas as corridas virtuais não podem saciar os profissionais por muito tempo. Emma Coburn, campeã mundial dos 3.000 metros com barreiras, dona do recorde americano e da medalha olímpica de bronze, conseguiu descarregar parte da energia acumulada com uma corrida real em junho, quando completou 1,6 km em 4m32s, quebrando o recorde estadual do Colorado em uma miniatura de pista restrita aos membros do seu clube profissional de atletismo.

“Não conseguimos satisfazer nossas necessidades competitivas apenas com corridas virtuais", disse Emma, acrescentando acreditar que as corridas virtuais tenham “aberto o mundo”, com  corredores de diferentes países disputando entre si. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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