Mãos sujas

Há muito tempo se vende a Fórmula 1 como esporte de elite, coisa de gente de fino trato. Só tem tecnologia de ponta, carros maravilhosos, pilotos competentes, patrocinadores bilionários, mulheres estonteantes. É um charme. Engano. As mutretas nesse circo especial infelizmente ocorrem como em modalidades menos glamourosas, com a diferença de que em geral são escamoteadas e perdoadas pela sedução que exerce o mundo do luxo. Hipocrisia.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

A Ferrari ontem mais uma vez sujou as mãos de seus integrantes ? e não foi de graxa, mas de comportamento rasteiro, ao ordenar que Felipe Massa tirasse o pé para o espanhol Fernando Alonso ganhar a corrida. No futebol, o que aconteceu na Alemanha seria classificado de arranjo de resultado, maracutaia, entrega o jogo. Desonestidade, enfim, das grossas e que seria seguida da devida espinafração. No atletismo, equivaleria a doping e mereceria no mínimo suspensão. Na F-1, fala-se em "jogo de equipe", há quem embarque nessa e veja como normal a estratégia de um piloto dar de bandeja para outro o alto do pódio.

A escuderia italiana não escondeu a desfaçatez, o oportunismo, o desprezo por aqueles que se iludem ao achar que GPs de Fórmula 1 não colocam à prova a excelência das máquinas, mas também ? e principalmente ? levam em conta o talento dos pilotos. A mítica equipe do Cavalinho Rampante deu patada na ética, na elegância. No Esporte.

Ah, mas um ajudou o outro companheiro de equipe. Balela. Esse pessoal passa a imagem de que há lealdade e disputa entre pilotos do mesmo time ? e na prática desmentem isso. Bom, mas estão em jogo milhões de dólares. E daí? Mutreta é mutreta sempre, com milhões ou com centavos. É tão feio roubar no jogo de palitinho como na F-1.

Constrangedor foi acompanhar pela tevê a submissão de um piloto a exigências indecentes. O fato de novamente ter sido um brasileiro é uma coincidência irrelevante. O ato em si, independentemente da nacionalidade, deprime.

Assim como ocorreu com Barrichello no passado na própria Ferrari, agora foi a vez de Massa assumir que não passará de coadjuvante, escada, fantoche. Regiamente pago, mas manipulado, sem voz ativa, sem vontade. Fará carreira e fortuna na equipe, mas jamais será ídolo, ficará a quilômetros de distância de Senna, Piquet, Fittipaldi. Patético vê-lo afirmar, com voz débil, que trabalhou para a equipe. Vai contentar-se com as migalhas que sobrarem do banquete.

A categoria mais sofisticada do automobilismo vive crise de credibilidade. Nos últimos anos, esteve envolvida em escândalos, como espionagem ou o episódio do acidente fajuto de Nelsinho Piquet. Também se viu cercada de brigas políticas, mudanças constantes de regulamento, desaparecimento de equipes, queda de receitas, ausência de pilotos carismáticos. Não é por acaso que rareiam os grandes duelos nas pistas. De quebra, vem a falcatrua de ontem.

Arrivederci Ferrari, goodbye Fórmula 1, adeuzinho Massa.

Feiúra. Torcedores de Santos e São Paulo mostraram que não jogam dinheiro fora. Nem 10 mil pagaram para ver duelo insosso e sonolento. O jogo foi tão esquisito quanto o tipo que invadiu o gramado depois do gol santista. Os dois times têm como desculpa compromissos importantes do meio de semana. Argumento que vem a calhar para escamotear a fase sem brilho que atravessam desde a parada para o Mundial. Não se tirou nada de proveitoso da hora e meia de futebol na Vila. Se resta como consolo, o Santos encerrou a série de derrotas (3 seguidas) e jogará mais aliviado contra o Vitória. O São Paulo (1 ponto nos últimos 12 disputados) levará suas incertezas para o primeiro confronto com o Inter (4 vitórias) pela Libertadores.

Belezura. Mano Menezes se despede do Corinthians como líder, num jogo bem animado contra o Guarani. Hoje começa a aventura na seleção. Tomara represente o retorno de futebol bonito e convincente. A convocação será o cartão de visitas.

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