Maradoninha abandonado

No final dos anos 90, o Fluminense disputava a desprestigiada Terceira Divisão do futebol nacional, mas parecia ter ao menos uma coisa importante para comemorar. Ninguém menos que Carlos Alberto Parreira, técnico campeão do mundo, vaticinou que no elenco tricolor havia um futuro grande craque, baixinho e canhoto, cujo estilo lembrava o de Maradona: Roger. Graças à habilidade do garoto, o Flu conquistou o título e, por conta de manobra de bastidores, foi catapultado de volta à Primeira Divisão. A carreira de Roger, se imaginava, seria também catapultada rumo à glória.Uma década depois, Roger está no Brasil - e desempregado. Dispensado pelo Corinthians, com empréstimo não renovado pelo Flamengo e desprezado por equipes como Vasco, Cruzeiro e Botafogo, o jogador de 29 anos, idade em que o Maradona original atingiu o ápice da forma técnica, vê a carreira chegar a uma encruzilhada. O que levou um talento promissor a tão triste situação foi uma sucessão de erros de avaliação, quase todos de sua própria responsabilidade, a começar pela transferência precipitada para o Benfica. Portugal está longe de ser um dos principais centros do futebol europeu, como Itália, Espanha e Inglaterra. E o Benfica está longe de ser o mais poderoso clube português, título do Porto. País errado, clube errado. Culpa dos cartolas? Também. Mas nenhum jogador assina contrato se não estiver disposto. E mesmo no clube errado e no país errado, poderia ter se destacado, mas foi aí que voltou a se manifestar uma das características que mancharam sua carreira: a inconstância. Desde os tempos de Fluminense Roger joga de forma errática, alternando grandes atuações com jornadas apagadas. No mesmo jogo, é capaz de combinar 15 minutos de genialidade com 15 minutos de puro tédio. Para ele, parece tão comum fazer gol olímpico no Parque Antártica ou gol do meio do campo no Morumbi quanto sumir em momentos críticos de um clássico. É difícil imaginar o que leva Roger a agir assim, mas intuo que isso ocorra porque parece considerar o futebol só um meio de conseguir coisas que julga mais importantes, como dinheiro e, sobretudo, fama.Poucas vezes vemos Roger tão à vontade num campo de futebol como quando está num de seus ambientes favoritos: restaurantes elegantes ou eventos badalados, ao lado de namoradas famosas (Adriane Galisteu e Deborah Secco, para ficarmos nas mais recentes). Não é o primeiro nem será o último jogador de futebol com fixação em loiras famosas. E não há nada de errado no fato de gostar dos holofotes. Sou contra o patrulhamento da vida pessoal dos atletas e os julgo pelo que produzem em campo. Mas, ao contrário da maioria dos companheiros de profissão, Roger parece não entender que só teve acesso ao mundo dos ricos e famosos pelo que fez com a bola nos pés. E certamente não percebe que, sem jogar, dificilmente continuará cercado de pessoas famosas - especialmente das que preferem namorar pessoas igualmente famosas. Se Roger quiser mesmo ser festejado no mundo da TV sem jogar bola, que faça um excelente curso de teatro ou jornalismo. Mas se quer brilhar na telinha sem ter talento de artista, é bom encontrar um clube e jogar muito bem não uma ou duas partidas - mas duas ou três temporadas. Talento de artista não tem, mas talento futebolístico possui de sobra. Há tempo para um recomeço, mas o tempo não esperará pelo juízo do rapaz. Portanto, acorda Maradoninha!

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