Maratona de Londres terá 'coelho' ilustre no próximo domingo

Haile Gebrselassie, um dos maiores fundistas da história, vai marcar o ritmo da maratona

Amanda Romanelli, O Estado de S. Paulo

05 Abril 2014 | 17h02

SÃO PAULO - Em boa parte das grandes provas de fundo do mundo, seja nas pistas ou nas ruas, eles estão lá. Silenciosamente, trabalham para que no fim de uma determinada distância – dos 1.500 m aos 42,195 km de uma maratona – o vencedor da prova comemore uma marca digna de registro. Esse personagem desconhecido do público, mas fundamental na conquista de alguns dos mais expressivos recordes do atletismo, tem apelido: coelho. E, no próximo domingo, na Maratona de Londres, sairá do anonimato para ganhar nome. O de Haile Gebrselassie.

Etíope, 40 anos, Gebrselassie ganhou tudo com que um fundista pode sonhar. Tem 27 recordes mundiais na carreira (dois na maratona), dois ouros olímpicos e quatro títulos mundiais nos 10 mil metros. Já anunciou sua aposentadoria das competições, mas não se distanciou do atletismo. Continua participando de provas de rua e, por isso, foi convidado pelos organizadores da Maratona de Londres, uma das mais importantes do planeta, para ser o coelho da prova.

Mas quem é, e o que faz, o coelho do atletismo? "Ele é um atleta marcador de ritmo", explica o técnico Ricardo D’Angelo, que trabalha ou já trabalhou com alguns dos principais maratonistas do Brasil, incluindo Vanderlei Cordeiro de Lima – o medalhista olímpico, inclusive, já desempenhou esse papel. "A tarefa do atleta, que é contratado pelos organizadores, é levar a prova a um determinado ritmo até um trecho do percurso. Nas maratonas, normalmente até a meia (21 km) ou o quilômetro 30."

A contratação de Haile Gebrselassie, anunciada em 17 de fevereiro, foi um grande golpe de marketing da prova, que vai reunir os melhores maratonistas da atualidade. Não é a toa que a maratona do próximo domingo está sendo considerada por especialistas a de melhor field (elenco) de todos os tempos. Ela terá o queniano Wilson Kipsang (dono do recorde mundial, 2h03min23) e o ugandense Stephen Kiprotich (campeão olímpico e mundial), além da estreia do "menino dos olhos" do atletismo britânico, Mo Farah, em uma maratona. Quatro dos atletas que estarão em Londres são donos de marcas que aparecem entre as dez melhores da história da distância.

Como marcador de ritmo, ou coelho, ou lebre (como dizem em Portugal), ou pacemaker – pouco importa o nome –, Gebrselassie já sabe qual será sua missão em Londres: liderar o pelotão de elite até o quilômetro 30 em ritmo de recorde mundial. Para isso, terá de correr essa distância (pouco mais de 70% da prova) em 1h28.

Desde que foi realizada pela primeira vez, em 1981, a Maratona de Londres só teve um recorde mundial masculino quebrado – em 2002, por Khalid Khannouchi. Mas, com a presença de tantos nomes de qualidade em um percurso plano, a marca tem tudo para ser superada outra vez. "Nunca vi tantos grandes nomes juntos, nem em Mundial, nem em Olimpíada. Como eu poderia perder essa prova? Eu iria a Londres até se fosse só para assistir", disse Gebrselassie, que disputou a prova três vezes e teve um terceiro lugar como melhor resultado.

NA FRENTE

Independentemente de ser ou não famoso, o coelho deve ser, necessariamente, um grande atleta. "O cara tem de ser muito bom porque precisa manter o ritmo sem muita variação", avalia Adauto Domingues, técnico de Marilson Gomes dos Santos, que também estará em Londres. "Para correr o recorde mundial, é preciso fazer abaixo de três minutos por quilômetro, sem se esconder do vento. Não é para qualquer um."

Os coelhos, que podem ganhar até US$ 10 mil em uma grande maratona, nascem no congresso técnico, no dia anterior à corrida. São apresentados pelo diretor da prova aos treinadores dos atletas de elite. Na reunião, é discutido o ritmo que será obedecido para cada pelotão e onde cada coelho vai parar. Mas nada impede que o pacemaker continue para além do seu percurso contratado.

A questão é que é muito difícil manter a liderança e, eventualmente, vencer a prova – o que não quer dizer que nunca tenha ocorrido. "Quem está na frente fica desgastado, não pode fazer sua estratégia. Ele é pressionado o tempo todo, por isso o desgaste físico e psicológico é maior", explica Vanderlei Cordeiro de Lima.

Enquanto o coelho se desgasta, o grupo de elite vai poupando seus esforços. "Imagine ser guiado pelo Haile Gebrselassie, uma referência para os grandes maratonistas? É uma tranquilidade muito grande para aqueles que estão em busca de um bom resultado", afirma o medalhista olímpico. Em 2008, o próprio etíope usou três coelhos para ser o primeiro homem a baixar a marca de 2h04.

Até por deixar os atletas em uma "zona de conforto", há críticas ao uso desse tipo de artifício, que nasceu na década de 50 e não é utilizado em Mundiais e Olimpíadas. Para muitos, a prova fica monótona e sem competitividade. A mais tradicional das maratonas, a de Boston, nunca permitiu o uso de coelhos. Já a de Nova York decidiu não mais contratá-los em 2007.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.