Tony Luong/The New York Times
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Markelle Taylor correu maratonas na prisão. A de Boston foi mais fácil

Ele começou a correr como um antídoto para o desespero. Na semana passada, participou de tradicional prova como homem livre, com o tempo de 2h52min

Patricia Leigh Brown, The New York Times

27 de abril de 2022 | 05h00

Entre os corredores da primeira onda da Maratona de Boston na semana passada, havia um maratonista magro e musculoso com tornozelos finos do norte da Califórnia para quem toda aquela energia nervosa tinha um significado profundo. Markelle Taylor, ex-presidiário da prisão estadual de San Quentin, estava livre pela primeira vez.

Apenas uma semana antes, Taylor - que foi libertado da prisão em 2019 - recebeu a notícia de que, depois de três longos anos em que seus movimentos ficaram severamente circunscritos e as viagens exigiam permissão especial, ele finalmente estava liberado da liberdade condicional. Desceu do avião com seu equipamento de corrida no Aeroporto Internacional Logan, em Boston, como homem livre. “Cara, foi uma sensação linda”, disse ele, com um traço de suas raízes familiares no Mississippi evidentes no seu sotaque.

Na manhã de 18 de abril, com o frescor e o céu cristalino lembrando sua casa na Área da Baía de São Francisco, Taylor, de 49 anos, se sentiu bem e relaxado pela primeira vez em anos. Com seu short laranja combinando com Nike Alphaflys e a camiseta que ele escolheu em homenagem ao seu clube de corrida, o Tamalpa, em Marin County, Califórnia, partiu determinado a atingir seu objetivo: correr uma terceira maratona consecutiva com o tempo abaixo de três horas.

O número “três” é significativo para ele: a audiência de condicional n.º 3 resultou em sua libertação após 18 anos de prisão por assassinato e três anos para sair da condicional. Taylor, que ganhou o apelido de Gazela, parecia estar passeando ao cruzar a linha de chegada em 2 horas e 52 minutos. Ele manteve um ritmo constante de 1,6 km a cada 6min33s e “não foi doido” de correr muito rápido no começo. Ele ficou feliz de ver que alguns maratonistas perceberam seu desempenho e lhe pediram para posar para selfies. 

APOIO

Mensagens de seus treinadores, torcedores e amigos de corrida começaram a chegar. E continuam chegando. “Ele é mentalmente forte e dá duro mesmo quando está sofrendo”, disse Diana Fitzpatrick, que treinou Taylor. “O apoio que recebeu da comunidade vem por causa de quem ele é.”

A comunidade unida dos Tamalpa Runners, que recentemente elegeu Taylor para seu conselho, ajuda a mantê-lo em equilíbrio. Ele está orgulhosamente sóbrio há 21 anos - e contando. “Eles responsabilizam você”, disse Taylor sobre os membros do clube, que o aceitaram sem julgamentos desde o início. “Isso tira você do seu modo preguiçoso. Quando diz para as pessoas que quer correr com elas, você não pode decepcioná-las.”

Taylor correu sua primeira maratona em menos de três horas em setembro do ano passado na Avenue of the Giants, na Califórnia, onde, acolhido pelas sequoias, terminou em 2h56m12 e ficou em primeiro lugar em sua faixa etária e em quinto no geral. 

Taylor tinha 27 anos quando foi condenado à prisão perpétua por agredir sua namorada grávida, o que levou ao nascimento prematuro e morte de seu filho. Durante a infância, ele fora vítima de violência doméstica e sexual, depois ficou viciado em álcool e teve um longo histórico de violência contra mulheres.

Ele usou aquela sentença de prisão como oportunidade para romper com velhos padrões. “A coisa toda força você a crescer, amadurecer e ficar mais sábio”, disse. “Faz de você uma pessoa melhor.” Taylor começou a correr como um antídoto para o desespero depois que um amigo se suicidou após sua quinta negação de condicional. Taylor, que tem 1,60 m, era de longe o corredor mais rápido do 1000 Mile Club. “Correr era uma forma de liberdade”, disse ele três anos atrás. “Era a minha terapia, uma forma de escapar. E me manteve com os pés no chão”.

Em janeiro de 2019, Taylor ganhou um tempo de qualificação para a Maratona de Boston ao dar 104 voltas alucinantes ao redor do pátio da prisão. Foi solto seis semanas depois. Com a ajuda de apoiadores, recebeu permissão para correr em Boston, desde que ficasse grudado ao treinador que viajava com ele. 

Ele largou com uma equipe de caridade no pelotão de trás, mas terminou junto com a primeira onda, depois de 3h3min52, um recorde pessoal na época. Quando corre muito, ele se lembra dos erros de seu passado, na dor que sente no tornozelo esquerdo, que tem parafusos de metal - resultado da tentativa de saltar um muro para fugir dos três Rottweilers que o perseguiam. “Eu estava bêbado e achei que dava para pular”, lembrou.

Muita coisa mudou na sua vida desde então. Apenas três anos atrás, Taylor estava morando em uma instituição de reabilitação no distrito de Tenderloin, em São Francisco, onde os moradores eram obrigados a fazer o teste do bafômetro, tirar os calçados para provar que não estavam contrabandeando nada e passar por um detector de metais na porta. Hoje, mora em seu próprio apartamento subsidiado em uma das comunidades mais cobiçadas e ricas da região - Tiburon. “Cara, não dá para ficar melhor que isso”, disse ele.

No entanto, os desafios que ele enfrenta como negro e ex-presidiário continuam gigantescos. Para sobreviver, ele agora está trabalhando em um supermercado, onde ganha salário mínimo. Mas ele acredita que as coisas acontecem por uma razão. Se não tivesse recebido a sentença de prisão perpétua, ele provavelmente não teria se tornado corredor, não teria se livrado da dependência de álcool nem se transformado na pessoa calorosa e estável que ele é hoje. Taylor lançou uma linha de roupas esportivas no ano passado, uma ideia que ele vinha alimentando desde seu tempo na prisão. Seu logotipo é baseado em uma silhueta de Taylor quebrando as correntes ao correr. TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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