Marlon Zanotelli, do Maranhão para a elite do hipismo

Cavaleiro vive vida de aventuras - morando em caminhão, dormindo em carros e barracas - até o sucesso na Europa

Valéria Zukeran, Estadão.com.br

21 de março de 2013 | 08h15

SÃO PAULO - Ele vem do Maranhão. Sua história é de muita luta. Morou com a família durante um ano dentro de um caminhão. Dormiu em carros e barracas para competir e hoje, morando no exterior, começa a colher os frutos da dedicação pessoal e de sua família. Não é nenhum novo talento do atletismo, ou do boxe, esportes pródigos de histórias de superação como a descrita acima, mas de um esporte considerado de elite – o hipismo.

 

Marlon Modolo Zanotelli, de 24 anos, é um dos cinco cavaleiros da equipe que será beneficiada pelo Plano Brasil Medalhas, do Governo Federal, junto com Rodrigo Pessoa, Álvaro Affonso de Miranda Neto, Bernardo Alves e Pedro Veniss. Conseguiu a vaga por seus resultados - é o terceiro brasileiro melhor colocado no ranking da Federação Equestre Internacional (FEI), número 96. “Minha meta é ficar entre os 70 melhores até o fim do ano”, projeta.

Sua história começou de forma inusitada. O avô, gaúcho, era militar e o filho, Mário, aprendeu a montar nos cavalos do regimento onde o pai trabalhava, no Rio Grande do Sul. Não seguiu a carreira na nas forças armadas e levava uma vida modesta em São Luiz, para onde o pai havia sido transferido. “Eu ajudava a tomar conta de um orfanato e certa vez tentaram invadi-lo. Fui pedir ajuda a um dos comandantes da Polícia, que era ex-militar e amigo do meu pai. O comandante concordou, mas, pediu em troca, que ajudasse a reativar a escola de equitação da PM. E foi o que fiz”, conta Mário. “O Marlon começou lá aos 4 anos. Era um dos alunos. Como era pequeno, puxava a fila nas atividades e até me ajudou a ensinar a mãe dele.”

 

O trabalho durou um ano, o suficiente a descoberta de uma vocação. Mário mudou-se para o Rio, disposto a se aprimorar na Escola de Equitação do Exército. Fez o curso como civil e em 1994 começou a participar de competições de Concurso Completo de Equitação (CCE) com a meta de conquistar uma vaga nos Jogos Pan-Americanos de Mar del Plata, que seriam disputados no ano seguinte. O fato de ter quatro filhos na época não foi empecilho. A mulher, Maristela, deu apoio. “Moramos todos um ano dentro de um caminhão. Eu tinha seis anos, meu outro irmão quatro, outro três e mais novo tinha três meses”, relembra Marlon. “A gente ia de um lugar para outro, conforme as competições”, conta Mário.

O esforço não deu resultado. Em 1996, Mário foi para Fortaleza e passou a trabalhar na divulgação de um sistema de ensino de hipismo. A família ficou na cidade e Marlon voltou às aulas de equitação. Mário passou, então, a investir nos herdeiros. “A gente fazia coisas incríveis. Certa vez participamos de uma competição no Recife e, como não tínhamos dinheiro para o hotel, dormimos dentro do carro com o ar condicionado ligado. Em outra ocasião, em Belo Horizonte, dormimos em barraca”, conta Mário.

 

Em 2008, depois de muita luta, surgiu a primeira grande chance para Marlon. “Eu vim para São Paulo ficar um mês com o cavaleiro Yuri Mansur e, a ajuda dele, consegui um estágio com cavaleiro Ludo Philipparerts, na Bélgica. Fui para lá e montei para ele em concursos durante dois anos”, lembra o cavaleiro. Mas Philippaerts tinha filhos e Marlon só pode se desenvolver até certo ponto. “Ludo foi muito honesto com meu filho. Explicou para ele que ele sempre seria o quarto cavaleiro da família. Nunca teria os melhores cavalos”, explica Mário.

Quando chegou ao ápice, Marlon voltou para o Brasil mas só ficou cinco meses em São Paulo. Logo apareceu nova oportunidade na Europa. “Um empresário irlandês, Enda Carroll, me contratou para montar os cavalos dele. Meu patrão é jovem, tem apenas 27 anos mas uma cabeça muito boa. Começou um trabalho de investimento em cavalos, comprando-os bem jovens, trabalhando no desenvolvimento deles e revendendo-os com lucro. Tem uma fazenda em Waterloo, Bélgica, a Ashford Farm. Trabalho os cavalos e os monto nas competições.”

Atualmente, a fazenda tem 32 montarias. Todos os dias Marlon se dedica à tarefa de preparar oito delas. “É um trabalho puxado, de 12 horas, no mínimo. Começo às 7 da manhã e nunca sei a que horas exatamente vou terminar.” Mas o esforço tem valido a pena. Marlon tem melhorado sua posição no ranking da FEI e no ano passado pode dar um grande presente a Mário. “Disputei o Athina Onassis, no Rio, no dia do aniversário do meu pai. Ele não é muito de se emocionar, mas ao me ver  competindo com os melhores cavaleiros do mundo até chorou um pouquinho”, conta. “Fiquei com muito orgulho do meu filho. Fez todo aquele esforço de morar no caminhão, dormir no carro, na barraca, valer a pena”, explica Mário.

Marlon agora espera que, com o apoio que irá receber no Brasil o chefe irlandês, se sinta estimulado a lhe proporcionar algumas pequenas regalias. “A maior dificuldade até agora é que, quando um cavalo que estou montando recebe uma boa oferta, ele é vendido. Minha esperança é de que, daqui para frente, meu patrão se sinta motivado a conservar um ou outro cavalo e investir nele por mais tempo. Afinal, a possibilidade de disputar os Jogos passou a ser uma coisa muito mais real e um cavalo olímpico é muito valorizado. ”

Mário atualmente mora em Maceió, onde comanda uma franquia de um sistema de ensino de hipismo para crianças a partir de dois anos, a Equitakids.  Os filhos estão encaminhados. Além de Marlon, dois deles também trabalham com hipismo.

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