Marlon Zanotelli, do Maranhão para a elite do hipismo

Após uma vida cheia de aventuras, cavaleiro ganha apoio para lutar por vaga para defender o Brasil na Olimpíada

VALÉRIA ZUKERAN, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2013 | 02h09

Ele vem do Maranhão. Sua história é de luta. Morou com a família durante um ano dentro de um caminhão. Para competir dormiu em carros e barracas. Hoje, no exterior, começa a colher os frutos da dedicação pessoal e de sua família. Não é nenhum novo talento do atletismo, ou do boxe, mas do hipismo.

Marlon Modolo Zanotelli, de 24 anos, é o terceiro brasileiro melhor colocado no ranking da Federação Equestre Internacional (FEI), número 96. "Minha meta é ficar entre os 70 melhores até o fim do ano", projeta.

Sua história começou de forma inusitada. O avô, gaúcho, era militar da cavalaria e o filho, Mário, aprendeu a montar os cavalos do regimento, no Rio Grande do Sul. Não seguiu a carreira na nas forças armadas e levava uma vida modesta em São Luiz, para onde o pai havia sido transferido. "Eu ajudava a tomar conta de um orfanato e certa vez tentaram invadi-lo. Fui pedir ajuda a um dos comandantes da polícia, ex-militar e amigo do meu pai. O comandante concordou, mas, pediu que ajudasse a reativar a escola de equitação da cavalaria. E foi o que fiz", conta Mário.

O trabalho acendeu a vocação. No ano seguinte Mário mudou-se para o Rio. Fez curso na Escola de Equitação do Exército como civil e em 1994 começou a participar de competições de Concurso Completo de Equitação (CCE) com a meta de conquistar uma vaga nos Jogos Pan-Americanos de Mar del Plata. A mulher, Maristela, deu apoio. "Moramos todos um ano dentro de um caminhão. Eu tinha seis anos; meu outro irmão, quatro; o outro, três, e o mais novo tinha três meses", relembra Marlon. "A gente ia de um lugar para outro, conforme as competições", explica Mário.

O esforço não deu resultado. Em 1996, Mário foi para Fortaleza e passou a trabalhar na divulgação de um sistema de ensino de hipismo. A família ficou na cidade e Marlon voltou às aulas de equitação. Mário passou, então, a investir nos herdeiros. "Em uma competição no Recife não tínhamos dinheiro e dormimos dentro do carro com o ar condicionado ligado. Em outra ocasião, em Belo Horizonte, dormimos em barraca", conta Mário.

Em 2008, surgiu a primeira grande chance para Marlon. "Vim para São Paulo ficar um mês com o cavaleiro Yuri Mansur e, por meio dele, consegui um estágio com Ludo Philipparerts na Bélgica. Fui para lá e montei para ele por dois anos", lembra o cavaleiro. Marlon voltou para o Brasil, mas logo teve outra chance na Europa. "Um empresário irlandês, Enda Carroll, me contratou em 2011 para montar os cavalos dele, na Bélgica (Waterloo). Trabalho os animais e os monto nos eventos."

Hoje, a fazenda tem 32 cavalos. Todos os dias Marlon prepara oito deles. "Trabalho 12 horas, no mínimo." Mas o esforço tem valido a pena. Marlon vem subindo no ranking da FEI e no ano passado deu um presente a Mário. "Disputei o Athina Onassis no aniversário do meu pai. Ele não é muito de se emocionar, mas ao me ver competir com os melhores do mundo chorou", conta. "Fiquei orgulhoso. Fez tudo valer a pena", explica Mário.

Marlon deseja que o chefe irlandês lhe proporcione uma pequena regalia daqui por diante. "Espero que meu patrão se sinta motivado a conservar um ou outro cavalo para que eu possa montá-lo por mais tempo."

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