Marta chora pelo abandono do futebol feminino

Melhor jogadora do mundo pede mais oportunidades à modalidade no cenário brasileiro

PEDRO FONSECA, REUTERS

26 de julho de 2007 | 18h22

No dia mais feliz de sua vida,Marta chorou pelo futebol feminino do Brasil. Depois de terinspirado a seleção brasileira na goleada por 5 x 0 sobre osEstados Unidos na final dos Jogos Pan-Americano, a melhorjogadora do mundo reativou a campanha pelo apoio à modalidadeno país e trocou os sorrisos do pódio por lágrimas de protesto. Em uma entrevista coletiva muito concorrida no Maracanã,onde tornou-se a primeira mulher a ter seus pés gravados nacalçada da fama do estádio, Marta desabou ao lembrar que muitasjogadoras desistem de jogar futebol no país porque não têmcondições. Ela mesma, que defende o clube sueco Umea, disse tersaudades de casa e garantiu que voltaria a jogar aqui se fosseviável. "Eu já passei por vários momentos felizes na minha vida, amedalha de prata na Olimpíada, a eleição de melhor do mundo...mas hoje foi um dia muito especial, um dia em que o futebolfeminino mostrou para todo o país que a gente tem condições deestar no lugar mais alto do pódio", disse Marta, no momento emque começou a chorar. "A nossa esperança é que isso não pare por aí, tem muitamenina querendo jogar, muitas Martas, Formigas, Danielas... e agente está na luta para que isso venha a acontecer, que a gentetenha uma liga, uma estrutura melhor no Brasil", acrescentou. Os pedidos de Marta repetem o que a seleção feminina viveuapós a medalha de prata na Olimpíada de Atenas, em 2004, quandoo time era formado praticamente pelas mesmas jogadoras. Osegundo lugar olímpico representava a esperança dodesenvolvimento do esporte, o que acabou não acontecendo. Atualmente, São Paulo é o único estado que realizacompetições esporádicas da modalidade no país, e nove das 20jogadoras convocadas para o Pan-Americanos atuam em clubes doexterior. ESPERANÇA VIVA Durante a campanha no Pan-Americano, quando atraiu bonspúblicos em suas partidas, culminando com quase 70 mil pessoasna final desta quinta-feira, as jogadoras da seleção receberama promessa do ministro do Esporte, Orlando Silva, de que seempenharia pessoalmente para incentivar o crescimento damodalidade. Orlando esteve no Maracanã e viu todo o apoio do público àsjogadoras, que corresponderam com um espetáculo dentro de campoe também no pódio, até com coreografia diante do presidente dehonra da Fifa, João Havelange, que fez a entrega das medalhas. "Ele falou que está com a gente, que ia fazer de tudo parase empenhar por uma liga feminina. A nossa vontade é que issodê certo. Como para nós brasileiros a esperança é a última quemorre, a minha continua viva", contou Marta sobre uma conversaque o ministro teve com as jogadoras na Vila Pan-Americana. "Eu amo o meu país, lógico que se tivesse uma liga e aestrutura eu voltaria correndo", acrescentou a jogadora, queterá como próximo desafio pela seleção a Copa do Mundo daChina, em setembro. Marta isentou a Confederação Brasileira de Futebol (CBF)pela falta de uma liga nacional feminina e defendeu o papel daentidade em manter a seleção brasileira. Segunda ela, a soluçãoteria que partir exatamente dos governos, da iniciativa privadae dos clubes. Os apelos da atacante foram reforçados pelo técnico JorgeBarcellos, que falou em nome de todo o grupo campeãopan-americano. Ele defendeu que o futebol feminino atrai umpúblico diferente do que assiste ao jogo dos homens, com maiorpresença das próprias mulheres e de famílias. "O nosso papel está sendo feito. Os dirigentes é queprecisam fazer o papel deles e organizar os campeonatos", disseBarcellos. "Alguém tem que se mobilizar depois dessasapresentações e começar a crer no futebol feminino, porque élucrativo. Baste ver o público de hoje aqui no estádio."

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