Mártir pra quê?

Está cheio de torcedor miolo mole à solta pelo mundo. Em nome da paixão pelo futebol, esse tipo acha que vale qualquer atitude exagerada. Por isso, a cada semana elege vilões ou heróis para sua equipe. E inverte os papéis dos personagens de uma rodada para outra, ao sabor do vento, ou das vitórias e derrotas. Na maioria das vezes, não passa de folclore. Há situações, porém, em que o amor cego a leva a ameaças, tragédias. Mortes.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2012 | 02h06

Muita gente no Palmeiras anda com medo. A vida de pessoas comuns, mas ligadas ao clube, mudou por causa de intimidações, na maior parte anônimas, que recebem nestes dias duros que antecedem o quase inevitável rebaixamento. Há quem tenha jurado infernizar a rotina de cartolas, e têm o presidente Arnaldo Tirone como alvo principal. Os avisos de guerra estariam nas pichações e no ataque à loja oficial na sede social.

O cartola se sente acuado - e não é para menos. A administração que encabeça tem responsabilidade pelos tropeços da equipe, como teve méritos na conquista da Copa do Brasil. Se foi exaltada naquele episódio feliz, não surpreende enfrentar cobranças nesta hora angustiosa. Mas, assim como Tirone e turma não eram deuses meses atrás, não se justifica a demonização de agora. São executivos, que tinham objetivos a alcançar. Falharam? Então, assumam e sumam. Sair de cena será atitude generosa, para que reflitam e se reciclem.

Inadmissível é considerar a pressão violenta como mera bravata de desocupados. Nunca se sabe do que é capaz alguém que aposta na impunidade para extravasar frustração. Há os que entendam só a linguagem da violência; para esses, não resta forma de cobrar a não ser com brutalidade. Começam com palavrões, provocações, emboscadas, invasões e não se sabe onde vão terminar.

Vi uma entrevista, após a derrota para o Fluminense, em que Tirone trata de mostrar naturalidade diante da intimação bandida. O presidente se saiu com a constatação de que morrer "é destino inevitável de todo mundo" e se disse disposto a virar mártir palmeirense.

Epa, que conversa é essa?! A Humanidade tem mártires de sobra, homens que deram a vida por causas religiosas, políticas, filosóficas, e assim alteraram a história. Os gestos de coragem e caráter deles se eternizaram, são exaltados até hoje. Embora em muitos casos tenham virado só motivo para feriado...

O futebol não precisa de mártires, está recheado de figuras clássicas e perenes, como os craques, os carrascos, os pernas de pau, os juízes "ladrões", os técnicos "burros", os cartolas. Apesar de alguns serem polêmicos, sempre remetem a vida e sentimento. Nada de morte, sobretudo como consequência de postura de torcedor covarde. Não se admite isso, nem em sonho.

Há decepção com o descaminho palestrino - justa e compreensível. A torcida tem direito de demonstrar descontentamento, com protesto, com vaia, até com o abandono do time. Pode pedir, à maneira de Raul Gil, para o dirigente pegar o banquinho e sair de fininho. Jamais agir com violência.

Fred na amarelinha. Treinador tem cismas - e com Mano Menezes não é diferente. O regente da seleção deixou Fred na geladeira por um ano. Mas enfim reconheceu a fase excepcional do artilheiro do Brasileiro. Por isso, o incluiu na lista de convocados para o jogo com a Argentina, na semana que vem, em Buenos Aires. Gesto sensato do técnico, ao olhar para quem decide. Tomara que Fred tenha voltado para ficar de vez, assim como Kaká, que hoje enfrenta a Colômbia.

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