Matemática, futebol e aniversários

Na semana passada me tornei uma sensação no YouTube. Não por esta coluna, mas em razão de um vídeo que gravei duas semanas antes de viajar ao Brasil para cobrir a Copa do Mundo. Nas imagens, explico uma maneira científica de cortar um bolo, com base num método inventado em 1906 pelo cientista britânico Francis Galton. Em vez de cortar segmentos triangulares, extraímos um pedaço comprido e fino do meio do bolo. Até a noite de ontem, o vídeo tinha sido assistido quase 4 milhões de vezes.

Alex Bellos, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2014 | 02h01

Gravei o vídeo porque, além de escrever um livro sobre futebol brasileiro, também escrevi livros sobre matemática. Os leitores de Alex no País dos Números (Cia. das Letras, 2011) vão reconhecer o truque do bolo. Gosto do método de Galton porque nos faz pensar de maneira diferente sobre algo que consideramos dado.

Como especialista em futebol e matemática, com frequência sou indagado sobre a crescente obsessão com as estatísticas no esporte. Agora, quando vemos futebol, ficamos sabendo a distância percorrida por cada jogador, quantos passes foram completados e qual foi o porcentual do tempo de posse de bola de cada time. As páginas esportivas estão cheias de diagramas técnicos mostrando o zigue-zague dos jogadores pelo campo.

Embora essa sobrecarga de dados seja útil para os jornalistas que precisam preencher o espaço de suas edições e também para os fãs interessados nos méritos de determinados jogadores, a utilidade científica de tanta informação é limitada. Sozinhas, as estatísticas não podem prever resultados. O futebol está sujeito a um número demasiadamente grande de fatores aleatórios. Times com mais tempo de posse de bola, que completam o maior número de passes e que correm mais ainda podem perder.

No livro e no filme O Homem que Mudou o Jogo, o técnico de beisebol Billy Beane usa estatísticas para encontrar jogadores talentosos que os tradicionais olheiros tinham ignorado. Mas o futebol não é como o beisebol. A melhor maneira de saber se um jogador é bom é assisti-lo em campo, assim como ocorria antes da invenção dos computadores.

Mas é interessante a matemática que encontramos na Copa. O Mundial pode ser encarado como um maravilhoso estudo de caso do "paradoxo do aniversário", segundo o qual bastam 23 pessoas para termos uma probabilidade considerável de duas delas terem nascido no mesmo dia: 50,7%, um pouco mais de uma chance em duas. O resultado é surpreendente, já que o ano tem 365 dias.

A Copa do Mundo nos traz uma fantástica oportunidade para testar a teoria, já que cada time tem 23 jogadores. Verifiquei os dados, e tudo se comprova. Há aniversários simultâneos entre os jogadores de 16 equipes, mais ou menos como o esperado.

Entre elas estão Brasil e Camarões, que jogam hoje: Hulk e Paulinho nasceram em 26 de julho, e Eric Choupo Moting e Enoh Eyong são de 23 de março. Posso ensinar a eles um método para cortar o bolo de aniversário.

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